A utilização da tecnologia LiDAR, um radar que utiliza pulsos de laser para mapear o relevo sob a vegetação, revelou que civilizações antigas na Amazônia possuíam estruturas urbanas e populações significativamente maiores do que se imaginava. Um estudo publicado na revista Nature indica que os aquiry, no sudoeste da região, podem ter somado 3 milhões de habitantes há 2 mil anos.
A pesquisa liderada pelo finlandês Martti Pärssinen, com participação do brasileiro Alceu Ranzi, identificou cerca de 30 mil geoglifos — grandes estruturas de terra compactada — no atual estado do Acre. A escala dessas construções sugere a necessidade de grande mão de obra para execução e manutenção, evidenciando um nível de sofisticação arquitetônica e organizativa elevado.
O projeto Amazônia Revelada, coordenado por Eduardo Góes Neves, professor da Universidade de São Paulo (USP), também utiliza a técnica para localizar assentamentos abandonados. Neves afirmou que a tecnologia permite realizar em uma manhã de trabalho o que levaria um mês em campo. Além de sítios indígenas, o grupo encontrou uma vila colonial portuguesa na fronteira com a Bolívia e uma parede de pedra em Rondônia.
As descobertas reforçam a tese de “cidades-jardins”, conceito introduzido por Michael Heckenberger, professor da Universidade da Flórida. O modelo propõe que as populações se organizavam em núcleos de habitação intercalados com mata e lavouras, formando conjuntos politicamente integrados. Atualmente, as estimativas de população no pico pré-colombiano variam entre 8 milhões e 10 milhões de pessoas.
Avanços em análises de DNA e fósseis vegetais também alteram a percepção sobre a agricultura local. Segundo José Iriarte, da Universidade de Exeter, na Inglaterra, a domesticação do arroz ocorreu de forma independente na Amazônia há cerca de 4 mil anos. Há indícios de cultivo de milho, abóboras, inhame, cacau e cupuaçu muito antes do contato com europeus.
O projeto Amazônia Revelada mapeou 1 600 km² de floresta em sua primeira fase. Em uma nova etapa iniciada no meio deste ano, a meta é cobrir uma área de 60 mil km² para ampliar a identificação de patrimônios arqueológicos da região.


