A expansão de títulos isentos de Imposto de Renda, como CRIs, CRAs, LCIs e LCAs, intensificou a concorrência com as emissões do Tesouro Nacional, elevando os custos de captação do governo federal. Entre 2020 e 2025, o volume desses ativos mais que triplicou, chegando a R$ 896,5 bilhões, enquanto as ofertas do Tesouro cresceram 37% no período.
A isenção fiscal, vigente desde 2004 para alguns produtos, aumenta a rentabilidade líquida desses papéis, forçando o governo a oferecer juros brutos maiores para atrair investidores, especialmente pessoas físicas. Segundo estudo da corretora Warren, essa distorção gerou um custo adicional de R$ 23,9 bilhões ao Tesouro Nacional entre 2024 e o primeiro semestre de 2026.
A Receita Federal estima que a renúncia tributária para LCI, LCA, CRI e CRA seja de R$ 31,7 bilhões por ano, somando-se R$ 1,3 bilhão para debêntures. Já um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) indica que a demanda por títulos incentivados resultou em renúncia de quase 0,3% do PIB em 2025, totalizando R$ 381 bilhões considerando todos os instrumentos isentos.
O impacto é sentido nos leilões semanais do Tesouro, que cancelou três vendas este ano devido à dificuldade de formação de preços e exigências de remuneração mais alta pelos compradores. Marco Saravalle, estrategista da MSX Invest, afirmou que a dívida pública está difícil de rolar porque investidores pedem prêmios maiores a cada leilão.
O FMI aponta que algumas empresas podem estar emitindo papéis incentivados de forma estratégica para reforçar reservas de caixa, em vez de investir em capital. A pesquisadora Rui Xu observou que as emissoras mantêm 50% dos recursos captados nos primeiros cinco anos para obter ganhos financeiros.
Zeca Doherty, diretor-executivo da Anbima, defende que os incentivos tenham prazo determinado e acompanhamento de resultados para evitar assimetrias no mercado. O governo tentou taxar novas emissões em 5% por meio da Medida Provisória nº 1.303/2025, mas a medida foi derrubada pelo Congresso.


