Um em cinco adolescentes entre 12 e 17 anos no Brasil já foi vítima de abuso ou exploração sexual facilitado pela tecnologia, segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicado nesta quinta-feira (3). A média brasileira de 18% se alinha ao índice global de vitimização.
As redes sociais são o cenário de dois em cada três casos, com destaque para Instagram, WhatsApp e Facebook, plataformas controladas pela Meta. O levantamento, que entrevistou 21 mil jovens em 21 países entre 2020 e 2025, indica que jogos online representam o segundo ambiente mais comum, com 12% das ocorrências no Brasil.
As principais formas de violência reportadas no país são a exposição indesejada a conteúdo sexual (13,7%), pedidos para falar sobre atos sexuais ou envio de imagens do corpo (10,5%) e ofertas de dinheiro ou presentes em troca de encontros ou fotos (5,3%). Em 18% dos casos, a interação iniciada na internet resultou em abusos presenciais em escolas ou espaços públicos.
Sobre a autoria dos crimes, 55% dos casos brasileiros foram cometidos por pessoas conhecidas das vítimas. O relatório aponta que abusos praticados por menores de idade (35%) foram mais frequentes do que os cometidos por adultos (27%). Em 25% das ocorrências, os entrevistados não souberam identificar quem operava os perfis.
A agência da ONU afirma que o design das plataformas facilita a exploração da confiança dos menores. A vergonha e o desconhecimento sobre quais autoridades procurar impedem a denúncia: 41% das vítimas no mundo não contaram a ninguém e menos de 1% dos casos foram reportados oficialmente.
O impacto psicológico é severo. Vítimas de abuso apresentam quatro vezes mais probabilidade de ter comportamentos suicidas ou praticar automutilação, além de níveis de ansiedade 11 pontos percentuais superiores aos de outros jovens. Catherine Russell, diretora executiva do Unicef, descreveu a situação como uma “realidade dolorosa” que afeta a escolaridade e as relações cotidianas.
Diante do cenário, o Unicef recomenda que governos e empresas de tecnologia reforcem a privacidade de menores, endureçam regulamentações nacionais e criem sistemas de denúncia confiáveis. Em agosto, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) suspendeu funções de transmissão ao vivo do Discord no Brasil após o suicídio de uma adolescente durante uma live.


