Um míssil procedente do Irã, abatido pela Turquia na quarta-feira, 4 de março, sinaliza que Teerã pode levar a guerra “ao limite” para mostrar aos adversários que o conflito poderia sair do controle, impondo perdas a toda a região, aos Estados Unidos e a Israel. A avaliação é do professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas, Danny Zahreddine.
Segundo Zahreddine, a Turquia, por ser um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), poderia arrastar mais países para o conflito. O especialista argumenta que o Irã adotou a estratégia de “brinkmanship”, que é levar uma situação à “beira do abismo”. “É a estratégia de ‘bailar à beira de um abismo pedregoso’. É mostrar aos inimigos que, em um determinado ponto, a guerra pode sair do controle. E, ao sair do controle, todos vão perder muito, inclusive quem ataca” avalia Danny Zahreddine, professor brasileiro de origem libanesa.
O analista explica que, ao atacar bases dos EUA em 12 países do Golfo e lançar um míssil sobre a Turquia, o governo iraniano sinaliza que está disposto a “cair no abismo”. O comunicado do Ministério da Defesa da Turquia informou que o míssil foi interceptado por baterias antiaéreas da Otan após cruzar os espaços aéreos do Iraque e da Síria, sem vítimas ou feridos. O ministério ressaltou que se reserva o direito de responder a qualquer atitude hostil e instou todas as partes a se absterem de ações que possam agravar o conflito na região.
Em um comunicado divulgado em redes sociais, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que busca evitar a guerra por meio da diplomacia, mas que a agressão militar americano-sionista não deixou outra escolha senão a defesa. Ele ressaltou o respeito pela soberania dos países vizinhos e a crença de que a segurança e a estabilidade da região devem ser alcançadas por meio de esforços coletivos.
A imprensa dos EUA publicou, com base em fontes anônimas, que a CIA estaria tentando armar grupos separatistas curdos no Irã para lutar contra o governo de Teerã. O analista militar e de geopolítica Robinson Farinazzo, oficial da reserva da Marinha do Brasil, alerta que a suposta estratégia de armar os curdos pode irritar Erdogan, aliado dos EUA na Otan. “A grande incógnita é como a Turquia vai agir nessa situação porque, agora, os interesses dela estão em risco”, disse.
Danny Zahreddine argumenta que o “plano B” de Washington e Tel Aviv para derrubar o regime de Teerã é justamente o apoio aos grupos separatistas curdos. No entanto, ele ressalta que não há unidade entre a comunidade curda iraniana. O especialista em Oriente Médio avalia que é “surpreendente” a resistência do Irã, o que mostraria um bom preparo após a guerra de 12 dias em 2025. “Hoje eles produzem por volta de 150 drones por dia”, disse Zahreddine.

