Estudo revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

Um estudo conduzido por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) revelou que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres. A pesquisa, que analisou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que as mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens em tarefas domésticas e cuidados.

Essas horas não são remuneradas e muitas vezes passam despercebidas socialmente. Anualmente, as mulheres dedicam mais de mil horas a esse trabalho essencial, que inclui o cuidado com filhos, maridos e pais. A média de idade das cuidadoras informais é de 48 anos, e a maioria delas são filhas, cônjuges e netas.

A professora Valquiria Elita Renk, uma das autoras do estudo, destacou que as mulheres frequentemente abandonam seus estudos e atividades profissionais para assumir essas responsabilidades. Ela afirmou:

““Uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos, dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim.””

O estudo também aponta que, enquanto alguns países já implementaram políticas de apoio aos cuidadores, como na Finlândia e na Dinamarca, onde os assistentes domésticos são pagos pela municipalidade, no Brasil as iniciativas ainda são incipientes. A Política Nacional do Cuidado, instituída no final de 2024, está em fase de implementação.

Valquiria enfatizou a importância de reconhecer socialmente o trabalho das cuidadoras e a necessidade de compensação financeira para aliviar a sobrecarga que elas enfrentam. Ela ressaltou que o cuidado vai além de tarefas práticas, envolvendo uma relação afetiva com os assistidos.

A pesquisa incluiu 18 entrevistas com mulheres de áreas urbanas e rurais do Paraná e de Santa Catarina, responsáveis pelo cuidado de familiares idosos, doentes ou com deficiência. As participantes relataram que, em sua maioria, são filhas (68%) e esposas (21%), com idades variando de 21 a mais de 60 anos.

Além disso, 61% das mulheres entrevistadas afirmaram ter parado de trabalhar para cuidar de familiares em tempo integral. Muitas delas relataram sentir cansaço, solidão e desamparo, sem receber bonificações ou ter acesso à previdência social. Valquiria comentou:

““Essas mulheres sentem cansaço, solidão, se sentem desamparadas, não recebem bonificação, não têm previdência.””

O estudo também destaca a necessidade de uma mudança cultural na divisão das responsabilidades domésticas, enfatizando que tanto meninos quanto meninas devem ser educados para compartilhar essas tarefas. A pesquisa aponta que a sobrecarga recai mais intensamente sobre a chamada “Geração Sanduíche”, que lida com trabalho formal, gestão da casa e cuidado com filhos e idosos.

Por fim, Valquiria mencionou que, em casos de separação, alguns juízes têm começado a conceder compensações financeiras para o tempo que as mulheres dedicaram ao cuidado dos filhos, o que pode ser um sinal positivo para o futuro.

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