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Saúde

Agonorexia: novo termo alerta para riscos das canetas emagrecedoras

Amanda Rocha
Última atualização: 6 de março de 2026 04:13
Amanda Rocha
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Tempo: 4 min.
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A popularização das canetas emagrecedoras tem levado médicos brasileiros a identificar um quadro emergente na prática clínica: a agonorexia. O termo, importado dos Estados Unidos, descreve um padrão novo: a perda de apetite semelhante à anorexia, porém provocada por remédios — os chamados agonistas de GLP‑1 e análogos combinados. O conceito ainda não é um diagnóstico oficial, mas já preocupa por suas possíveis complicações quando os medicamentos são usados sem indicação médica ou acompanhamento adequado.

As canetas emagrecedoras são seringas pré‑enchidas com medicamentos injetáveis, como semaglutida (Ozempic, Wegovy e Rybelsus) e tirzepatida (Mounjaro). Esses fármacos imitam hormônios liberados pelo intestino e atuam no cérebro para reduzir o apetite e aumentar a sensação de saciedade, facilitando a perda de peso quando usados com indicação médica. No entanto, médicos têm observado uma inibição tão marcante do apetite que pode se tornar uma condição potencialmente perigosa.

“A agonorexia ainda não é uma entidade clínica estabelecida, não há critérios diagnósticos bem definidos. Não é um distúrbio mental clássico, mas já dá para dizer que é um efeito farmacológico extremo”, afirmou o endocrinologista Clayton Macedo, do Einstein Hospital Israelita e diretor da SBEM. Macedo foi um dos especialistas a trazer o termo agonorexia para o debate nacional, a partir de publicações e alertas observados nos EUA.

O especialista destacou que as canetas emagrecedoras são medicamentos para tratar doenças como obesidade e diabetes. “Usados corretamente, fazem parte de um tratamento multidisciplinar. Usados sem indicação ou em doses altas desde o início, podem provocar danos graves”, reforçou. Ele também alertou para versões manipuladas e contrabandeadas, que trazem risco à saúde por não terem regulação em sua produção.

O endocrinologista Renato Zilli, do Hospital Sírio‑Libanês, complementou que esses análogos de GLP‑1 corrigem um desequilíbrio biológico da fome e saciedade. O problema surge quando a redução de apetite se torna exagerada, levando à ingestão muito baixa de calorias. A titulação lenta da dose, acompanhada de monitoramento, é essencial para reduzir efeitos adversos.

Embora a agonorexia ainda não seja um diagnóstico oficial, os clínicos já identificam sinais que merecem atenção: perda de peso acelerada, náuseas persistentes, fraqueza extrema, isolamento social e aumento compulsivo da atividade física. “É um sinal de alerta vermelho quando o paciente valoriza excessivamente a diminuição do apetite ou demonstra ansiedade intensa para manter a medicação”, afirmou a psiquiatra Tâmara Kenski, da faculdade de medicina Santa Marcelina.

Macedo alertou para riscos clínicos reais associados ao uso inadequado das canetas, como a formação de cálculos biliares e pancreatite. “Dor abdominal intensa ou vômitos persistentes exigem avaliação imediata”, disse. Outro problema observado é a perda de massa magra, que pode levar à sarcopenia no futuro.

Na prática clínica, profissionais propõem medidas para minimizar danos: prescrição e acompanhamento por médico qualificado, escalonamento de doses, acompanhamento nutricional e programa de exercícios. “A decisão de continuar, reduzir ou interromper a medicação deve ser multidisciplinar”, afirmou Tâmara Kenski. Macedo também adverte contra a comercialização em ambiente puramente estético e recomenda desconfiar de promessas fáceis.

Por fim, Macedo deixou uma mensagem direta aos pacientes: “A caneta — quando bem utilizada — não é perigosa. O problema é o uso indevido.”

TAGGED:AgonorexiaAnorexiaCanetas EmagrecedorasClayton MacedoEndocrinologiafaculdade de medicina Santa MarcelinaHospital Sírio-LibanêsPsiquiatriaRenato ZilliSBEMTâmara Kenski
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