Análise sobre a guerra no Oriente Médio e suas consequências geopolíticas

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

A guerra no Oriente Médio tem provocado uma reconfiguração no tabuleiro geopolítico mundial, com consequências distintas para as principais potências envolvidas direta ou indiretamente no conflito. O confronto entre Israel e Irã, com participação decisiva dos Estados Unidos, apresenta diferentes cenários de ganhos e perdas para países como China e Rússia, tanto no nível tático quanto estratégico.

O assunto foi abordado no videocast Fora da Ordem, na última sexta-feira (6). O ministro do Irã afirmou que europeus serão ‘alvos’ caso se juntem a EUA e Israel. A análise sugere que os EUA são responsáveis por um ataque a uma escola no Irã. No nível tático, a degradação de sinais americanos e a drenagem de energias militares beneficiam China e Rússia, segundo Lourival Sant’Anna.

A China tem a oportunidade de observar a doutrina e o emprego dos armamentos americanos, conhecimento valioso em caso de um futuro conflito envolvendo Taiwan. Já a Rússia se beneficia com os Estados Unidos tendo menos disposição para ajudar a Ucrânia e maior tendência a pressionar Zelensky. O aumento do preço do petróleo prejudica a China, grande consumidora de energia, mas beneficia a Rússia, importante produtora, em um momento em que a economia russa enfrentava dificuldades.

A suspensão do fornecimento de energia dos países do Golfo Pérsico, ainda que temporária, prejudica a China e favorece a Rússia, tornando esta última ainda mais necessária como fornecedora para os chineses.

Em nível estratégico, China e Rússia perdem mais um aliado importante após já terem enfrentado reveses com Venezuela e possivelmente Cuba. Seus aliados e parceiros constatam que estas potências não vêm ao socorro quando são ameaçados pelos Estados Unidos. Por outro lado, os Estados Unidos se consolidam como a única superpotência global capaz de mudar configurações regionais e atuar decisivamente em favor de um aliado como Israel.

Contudo, há riscos para os americanos. As monarquias árabes do Golfo sentem que ser aliadas dos Estados Unidos as colocou em perigo. Além disso, os Estados Unidos aumentam seus gastos militares, tornando-se mais vulneráveis economicamente. Esta fragilidade pode beneficiar a China no longo prazo, especialmente se o conflito se prolongar.

A tolerância à dor é um fator crucial neste confronto. Os iranianos demonstram maior capacidade de suportar perdas em comparação com os americanos, cuja opinião pública já demonstra desaprovação às operações militares. Pesquisas indicam que apenas 27% dos americanos aprovam as operações contra o Irã, enquanto 59% as reprovam, o que pode comprometer o apoio interno à guerra, relembrou Priscila Yazbek.

Um aspecto relevante é a disparidade de custos entre os sistemas de defesa. Os Estados Unidos utilizam sistemas de interceptação como o Patriot e o THAAD, que custam milhões de dólares cada, enquanto o Irã emprega drones Shahid com custo entre 20 e 50 mil dólares. Esta assimetria econômica pode favorecer estratégias de desgaste por parte do Irã.

Novas tecnologias podem alterar esta equação. As forças americanas estão testando armas a laser para derrubar drones, com custo operacional muito inferior aos sistemas tradicionais. Se estas armas performarem adequadamente, poderão mudar novamente a história das guerras, assim como os drones fizeram anteriormente.

O Irã, sem condições de vencer militarmente, aposta na pressão econômica global e na sensibilidade eleitoral americana. O fechamento do Estreito de Hormuz e ataques a fontes de energia visam criar caos econômico que pressione Donald Trump internamente. A natureza democrática dos Estados Unidos, vista pelo Irã como uma fragilidade em tempos de guerra, é um fator explorado para buscar uma saída política para o conflito.

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