No consultório ginecológico, muitas mulheres compartilham histórias semelhantes. Elas trabalham fora, administram a casa, cuidam dos filhos, assistem os pais e mantêm relacionamentos, sentindo que nunca fazem o suficiente. Ao chegarem, relatam estarem ‘cansadas’, mas o que realmente descrevem é uma exaustão crônica.
O corpo feminino é altamente adaptável, mas possui limites. Quando a sobrecarga se torna constante, ele reage. O estresse funcional, que é pontual e fisiológico, ativa o cortisol por um curto período, permitindo que o organismo retorne ao equilíbrio. No entanto, o que se observa atualmente é um estado de alerta permanente.
Mulheres acordam cansadas, dormem mal, têm alimentação desregulada e vivem sob a sensação de que não podem relaxar. Quando o cortisol se mantém elevado por longos períodos, surgem problemas como alterações no sono, maior tendência ao ganho de peso abdominal, resistência à insulina e aumento do risco cardiovascular.
O eixo hormonal feminino é sensível ao estresse. Isso pode resultar em ciclos menstruais irregulares, intensificação da TPM, diminuição da libido e agravamento dos sintomas da menopausa. Muitas pacientes acreditam que esses problemas são apenas fases ou decorrentes da idade, mas frequentemente são reflexos de um organismo tentando se adaptar a um estado constante de exaustão.
A sobrecarga emocional também desempenha um papel significativo. A culpa por trabalhar demais, por não estar presente o suficiente ou por querer tempo para si mesma pode gerar ansiedade crônica, irritabilidade e sensação de inadequação, podendo culminar em burnout. A chamada ‘síndrome da supermulher’ descreve mulheres que sentem a necessidade de dar conta de tudo sem mostrar fragilidade.
Como ginecologista, percebo que muitas mulheres só buscam ajuda quando o corpo ‘para’, seja por uma hemorragia, uma crise de ansiedade ou alterações graves nos exames. O autocuidado é frequentemente adiado. A sociedade valoriza a mulher forte, mas raramente pergunta como ela realmente está.
Cuidar da saúde feminina vai além de tratar exames ou prescrever hormônios. É fundamental reconhecer que existe um preço biológico para a sobrecarga contínua. No Dia Internacional da Mulher, o gesto mais significativo pode ser legitimar o direito ao descanso, ao limite e ao cuidado, pois nenhuma mulher deve suportar tudo. O corpo sempre encontra uma forma de lembrar disso.


