No Litoral Norte da Paraíba, mulheres do povo Potiguara mantêm viva a tradição da parteria, transmitindo saberes entre gerações. A Associação de Parteiras e Benzedeiras do Povo Potiguara (Aparbep) é formada por 16 integrantes dedicadas ao ofício de facilitar o nascimento, atuando como ponte entre o útero e o colo.
A sede da associação está localizada na Aldeia do Forte, em Baía da Traição, a mais de 80 km de João Pessoa. A casa de dois cômodos foi construída com recursos de um edital, já que o trabalho das parteiras é voluntário. Nesse espaço, as mulheres realizam reuniões, compartilham conhecimentos e acompanham gestantes até o momento do parto, que geralmente ocorre nas residências das famílias.
A enfermeira Aparecida dos Santos Bezerra, conhecida como Cida Potiguara, tem 55 anos e é parteira desde os 16. Ela conta que, na infância, sonhava em ser professora, mas o interesse pela parteria surgiu ao acompanhar sua tia, Nancy, uma das parteiras mais antigas do povo Potiguara, que atualmente tem 83 anos. ‘Eu sempre falava para minha mãe: ‘Eu queria ser professora’. Mas o destino foi me levando’, relata Cida.
Cida começou a ajudar nos partos aos 14 anos e, aos 16, realizou seu primeiro parto. ‘Era pegar a bolsa, correr, lavar um pano. Depois do parto, tinha os rituais e eu fui me acostumando. Até hoje, eu me arrepio toda vez que eu falo’, diz. Desde então, já foram mais de 300 nascimentos assistidos por Cida, que descreve a experiência como uma renovação espiritual.
Outra parteira, Lindinalva Ferreira da Silva, conhecida como Pempa, tem 69 anos e atuou em mais de mil partos. ‘Quando dá tudo certo, é uma alegria tão grande que a gente não sabe nem explicar’, afirma. Ela também aprendeu com a tia Nancy e destaca que, embora a parteira auxilie, o verdadeiro ato do parto é realizado pela mãe.
Maria Francisca Marciel, chamada de Penha, acredita que ser parteira é um chamado. ‘Você tem que ter o chamado. Se você não tiver, não dá certo’, explica. Penha recorda que seu interesse começou na infância, quando presenciou uma mulher em trabalho de parto. ‘Eu fiquei com aquela curiosidade, como é que pode?’, relembra.
Com mais de 700 partos realizados, Penha afirma que consegue perceber quando um parto deve ser feito em hospital. ‘Algo me fala que vai dar tudo certo e eu continuo’, diz. Ela também menciona que a conexão com a natureza a ajuda durante os partos, como em uma ocasião em que olhou para a lua para entender o momento do nascimento.
Josiane Torres, de 48 anos, aprendeu a prática com Penha e se tornou parteira oficialmente há dois anos. Ela descreve a experiência como uma dádiva divina, ressaltando a importância da ancestralidade. ‘É uma renovação que a gente vê, não só na mãe, como em si própria’, afirma.
Para as parteiras do povo Potiguara, o parto natural é uma tradição sagrada, repleta de ancestralidade. Cida Potiguara explica que o território onde atuam é sagrado e que a transmissão desses saberes é uma forma de manter a cultura indígena viva. ‘Esse saber é carregado com a nossa prática, com a nossa cultura do nosso dia a dia’, conclui.


