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Anvisa alerta sobre risco de danos ao fígado por suplementos de cúrcuma

Amanda Rocha
Tempo: 5 min.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta sobre o risco raro de inflamação e danos ao fígado relacionados ao uso de medicamentos e suplementos alimentares que contêm cúrcuma, também conhecida como açafrão. A decisão foi anunciada no dia 9 de março de 2026, após avaliações internacionais identificarem casos suspeitos de intoxicação hepática em pessoas que utilizaram produtos com cúrcuma ou curcuminoides, especialmente em cápsulas ou extratos concentrados.

Segundo a Anvisa, o problema está ligado principalmente a formulações desenvolvidas para aumentar a absorção da curcumina, o principal composto ativo da cúrcuma, resultando em doses muito maiores do que aquelas obtidas no consumo alimentar. Autoridades regulatórias de países como Itália, Austrália, Canadá e França já haviam emitido alertas semelhantes após registrarem casos de problemas hepáticos associados ao consumo desses suplementos.

Na França, a Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Meio Ambiente e do Trabalho (ANSES) identificou dezenas de relatos de efeitos adversos ligados ao consumo de suplementos contendo cúrcuma ou curcumina, incluindo episódios de hepatite.

Pedro Bertevello, cirurgião do aparelho digestivo da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, afirmou que os casos de lesão hepática tendem a ocorrer principalmente quando os produtos são usados em doses altas ou sem orientação médica. Ele destacou que muitas pessoas acreditam que suplementos naturais são totalmente seguros e acabam aumentando a quantidade por conta própria. “Existem doses consideradas seguras para o uso dessas substâncias. O problema é que muitas pessoas tentam potencializar os efeitos e acabam consumindo quantidades muito maiores do que o necessário”, disse.

Bertevello também explicou que a falta de padronização na concentração dos produtos pode contribuir para o risco. “Nem sempre há uma regulação clara da concentração dessas substâncias. Muitas pessoas compram suplementos sem conhecer bem a procedência ou a dose real do produto”, completou.

A cúrcuma é uma planta usada há séculos como tempero e em preparações medicinais. O principal composto ativo, a curcumina, possui propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. Contudo, nos suplementos alimentares, a curcumina costuma aparecer em doses muito mais altas do que aquelas consumidas na alimentação. Além disso, muitas formulações incluem substâncias que aumentam a absorção da curcumina pelo organismo, como a piperina, presente na pimenta-preta.

Essas características fazem com que uma quantidade maior do composto seja metabolizada pelo fígado, o que pode desencadear uma reação inflamatória nas células hepáticas, levando a um quadro conhecido como hepatite medicamentosa. Bertevello ressaltou que o risco está associado ao uso de doses elevadas ou à combinação com outros medicamentos. “Quando investigamos melhor esses casos, muitas vezes encontramos pessoas que usam várias substâncias ao mesmo tempo ou que aumentam a dose por conta própria, acreditando que por ser natural não haverá efeitos no organismo”, afirmou.

A Anvisa destacou que o alerta não se aplica ao uso da cúrcuma na alimentação. O pó utilizado na culinária é considerado seguro, pois as quantidades consumidas na dieta são muito menores do que as presentes em suplementos concentrados.

A agência orienta que usuários desses produtos procurem avaliação médica caso apresentem sinais compatíveis com possível lesão hepática, como pele ou olhos amarelados (icterícia), urina escura, cansaço intenso sem causa aparente, náuseas ou dor abdominal. A recomendação é interromper imediatamente o uso e procurar atendimento de saúde caso esses sintomas apareçam.

Como medida preventiva, a Anvisa determinou a atualização das bulas de medicamentos que contêm cúrcuma, incluindo avisos de segurança. Entre eles estão os produtos Motore e Cumiah. A Anvisa também informou que abrirá um processo de reavaliação do uso dessas substâncias nos suplementos alimentares, além de exigir a inclusão de advertências obrigatórias sobre possíveis efeitos adversos nos rótulos.

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