As emissões de gases de efeito estufa do Reino Unido caíram 2,4% em 2025, atingindo o nível mais baixo em mais de 150 anos. A análise foi realizada pelo site especializado Carbon Brief com base em dados preliminares do governo britânico.
No total, o país emitiu cerca de 364 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente no ano passado, o menor volume desde 1872, quando a economia britânica era dominada pela indústria pesada e pelo uso intensivo de carvão.
A redução reflete uma transformação estrutural no sistema energético do país nas últimas décadas. O Reino Unido hoje emite 54% menos gases de efeito estufa do que em 1990, ano que serve de referência para metas climáticas internacionais, mesmo com a economia quase tendo dobrado de tamanho no período.
Dados do World Bank indicam que o Produto Interno Bruto britânico cresceu cerca de 95% desde então, evidenciando um processo de dissociação entre crescimento econômico e emissões de carbono.
A queda registrada em 2025 foi puxada principalmente pelo recuo no consumo de combustíveis fósseis, em especial carvão e gás natural. O uso de carvão despencou 56% no ano passado, atingindo o menor nível em mais de quatro séculos, com menos de 1 milhão de toneladas consumidas, um volume comparável ao registrado por volta de 1600.
Esse colapso do carvão está diretamente ligado ao encerramento da última usina termelétrica do país movida pelo combustível, a Ratcliffe-on-Soar Power Station, que deixou de operar em setembro de 2024.
Durante décadas, o carvão foi a base da geração elétrica britânica e símbolo da Revolução Industrial, mas sua participação vinha caindo rapidamente à medida que fontes renováveis e gás natural passaram a dominar a matriz energética.
Além do fim da geração elétrica a carvão, a redução no consumo do combustível também foi influenciada por dificuldades na indústria siderúrgica britânica, que perdeu capacidade após o fechamento de dois altos-fornos no complexo de Port Talbot steelworks, no País de Gales.
A unidade está sendo convertida para produção com fornos elétricos, tecnologia que dispensa o uso de carvão e reduz significativamente as emissões. O gás natural também registrou queda relevante no consumo, com uma demanda que recuou 1,5% em 2025, atingindo o menor nível desde 1992.
A redução foi impulsionada pela menor necessidade de aquecimento em edifícios e pela retração da atividade industrial, refletindo temperaturas excepcionalmente altas no país e os preços elevados da energia.
No setor de transportes, as emissões seguem elevadas, mas começam a mostrar sinais de mudança com a expansão da frota de veículos elétricos. Em 2025, cerca de 700 mil novos carros, vans e híbridos plug-in foram incorporados às estradas britânicas.
Atualmente, quase 3 milhões de veículos eletrificados circulam no país, o equivalente a aproximadamente 5% da frota total. Esses veículos evitam a emissão de mais de 7 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano.
A transição também gera economia para os motoristas, já que os carros elétricos são mais eficientes e têm custos operacionais menores do que veículos movidos a gasolina ou diesel.
Apesar desses avanços, especialistas afirmam que o ritmo atual de redução ainda está aquém do necessário para cumprir as metas climáticas estabelecidas pelo país no âmbito do Acordo de Paris.
Para alcançar a neutralidade de carbono até 2050, o Reino Unido precisará reduzir suas emissões em média cerca de 15 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano nas próximas décadas. Em 2025, o corte foi de aproximadamente 9 milhões de toneladas.
O desafio também envolve setores em que a transição energética avança mais lentamente, como aquecimento residencial, agricultura e indústria pesada. No caso das residências, a substituição de caldeiras a gás por bombas de calor elétricas ainda ocorre em ritmo considerado modesto, com cerca de 125 mil unidades instaladas em 2025.
A experiência britânica costuma ser citada como um exemplo relevante de transformação energética em economias desenvolvidas. Ao longo das últimas duas décadas, o país praticamente eliminou o carvão da geração elétrica e expandiu rapidamente a produção de energia eólica e solar.
O desafio agora é replicar essa velocidade de mudança em setores mais difíceis de descarbonizar, especialmente transporte pesado, indústria e aquecimento urbano.


