O bloqueio no Estreito de Ormuz pode ter impactos econômicos globais e afetar o próprio Irã, segundo David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) e professor do Instituto de Energia da PUC-Rio.
Zylbersztajn observa que há um paradoxo na situação: o país que estaria provocando a crise também seria o mais prejudicado economicamente. O Irã depende fortemente da exportação de petróleo que passa pela rota estratégica. “O primeiro prejudicado é o Irã, porque o país exporta 90% do petróleo dele para a China. Praticamente toda a sua pauta de exportações é petróleo, que representa 40% do PIB iraniano”, afirma.
O professor destaca que a decisão do Irã de pressionar a passagem marítima pode gerar perdas diretas para Teerã. “O Irã, de alguma maneira, está dando não é nem um tiro no pé, está dando tiros para todos os lados, mas está sendo prejudicado.”
A China, principal compradora da produção iraniana, seria a segunda economia mais afetada. “Quase 50% do petróleo importado pela China passa pelo Estreito de Ormuz”, diz Zylbersztajn.
Além do Irã e da China, produtores da própria região também sofreriam consequências diretas caso a interrupção da rota se prolongue. O especialista acredita que esse cenário pode gerar pressão internacional para uma solução rápida do conflito.
Zylbersztajn avalia que a China dificilmente participaria de uma ação militar, mas poderia agir de outras formas. “A China não vai intervir militarmente — pelo menos diz a racionalidade —, mas pode intervir diplomaticamente e economicamente no Irã, que é um estrangulamento da principal fonte de divisas do país”, explica.
Os efeitos da crise vão além do preço da gasolina e do petróleo. Segundo o professor, cadeias produtivas globais podem ser afetadas. “Você vai ter problemas na exportação de subprodutos essenciais, como por exemplo o enxofre para fazer ácido sulfúrico, que é necessário para a mineração no mundo inteiro. Praticamente todo o enxofre sai de lá”, alerta.
Ele também cita riscos ao abastecimento energético em países dependentes do gás natural transportado pela região, como Taiwan, que obtém 10% da energia elétrica do gás natural que passa pelo Estreito de Ormuz.
Além disso, insumos usados na produção agrícola também podem sofrer impacto, como os nitrogênios para fertilizantes. Diante desse quadro, Zylbersztajn afirma que a dimensão do choque econômico pode ser maior do que aparenta. “A questão é muito mais abrangente do que parece. Os prejudicados, de alguma maneira, vão ter que dar uma solução para isso, independente até do conflito terminar ou não no curto prazo”, conclui.


