Vídeos de turistas na Rocinha geram debate sobre ‘romantização da pobreza’

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

Turistas formam filas nas lajes da Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro, para gravar vídeos com drones. Enquanto aguardam, algumas visitantes retocam a maquiagem para posar em meio à vista aérea da comunidade.

Os vídeos, com fundo musical contagiante, viralizaram nas redes sociais em um momento em que o Rio registra números recordes de turistas. Alguns visitantes chegam a esperar até duas horas para se filmar, pagando pelo menos R$ 150. Recentemente, um pedido de casamento foi feito durante essas filmagens.

No entanto, a situação gerou críticas, com comentários que acusam os turistas de romantizar a pobreza e o crime em uma comunidade de baixa renda, onde o tráfico de drogas é prevalente. Renan Monteiro, fundador da empresa Na Favela Turismo, defende que não se trata de romantização, mas de mudar preconceitos sobre a comunidade.

“”Não estamos romantizando a pobreza não. A gente quer mudar ali o preconceito que existe na cabeça das pessoas”, afirmou Monteiro.”

Ele explica que os turistas só podem acessar as lajes por meio de um tour que inclui um percurso pelos becos da favela, onde interagem com moradores e assistem a apresentações culturais, como capoeira. Gabriel Pai, um turista da Costa Rica, descreveu sua experiência como encantadora.

“”Para mim foi realmente encantador ver o ambiente”, disse Pai.”

A influenciadora brasileira Ingrid Ohara, com 12 milhões de seguidores no Instagram, também participou das filmagens, destacando a viralização dos vídeos.

“”Esses vídeos que eu faço sempre pegam bastante visualização, e aí eu quis fazer aqui na Rocinha, porque está sendo viral no mundo todo”, comentou Ohara.”

Monteiro, que cresceu na Rocinha, relembra os primeiros tempos do turismo na favela, que enfrentou um período de paralisação após a morte de uma turista espanhola em 2017. Desde então, ele e líderes comunitários desenvolveram rotas turísticas seguras e um aplicativo para monitorar as visitas.

Atualmente, a empresa de Monteiro formou 300 guias locais e 10 pilotos de drone. Pedro Lucas, um dos pilotos, destacou como o trabalho mudou sua vida, proporcionando novas oportunidades.

“”Ganhei um dinheiro bacana e seria bom se mais pessoas da favela tivessem a oportunidade”, disse Lucas.”

Os proprietários de 26 lajes na Rocinha e no Vidigal também cobram pela visitação. O turismo no Rio de Janeiro teve um aumento significativo, com quase 290 mil visitantes internacionais em janeiro, segundo a Embratur.

Claudiiane Pereira dos Santos, uma moradora da Rocinha, celebrou o crescimento do turismo, enfatizando que a comunidade é composta por pessoas trabalhadoras e boas.

“”Nós temos muita gente boa. Tem muito trabalhador, tem pessoas maravilhosas”, afirmou Santos.”

Cecilia Oliveira, diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado, reconheceu que alguns moradores veem o turismo como uma fonte legítima de renda, mas expressou preocupação com a forma como a favela pode ser percebida.

“”O problema é quando a favela deixa de ser um bairro vivo, complexo e atravessado por desigualdades estruturais para virar apenas contraste exótico ou pano de fundo para conteúdo impactante”, lamentou Oliveira.”

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