A Comunidade Tia Eva, localizada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, foi oficialmente reconhecida como o primeiro quilombo do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na terça-feira, 10 de março de 2026. O reconhecimento ocorreu durante uma reunião do conselho do Iphan no Rio de Janeiro e foi formalizado por meio de uma portaria que criou um livro do tombo específico para territórios quilombolas.
Com o tombamento, o Iphan publicou no Diário Oficial da União um mapa que delimita a área que será protegida pelo governo federal. Esse reconhecimento é considerado um passo importante para a preservação da memória e da cultura afro-brasileira na capital sul-mato-grossense.
A Comunidade Tia Eva abriga cerca de 250 famílias, todas descendentes de Tia Eva, que fundou o território quilombola. Ronaldo Jefferson da Silva, presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva, destacou a importância do reconhecimento, afirmando:
““É uma luta de resistência de Tia Eva. Ela veio de Mineiros, em Goiás, buscando exatamente isso: um espaço seu, para dar continuidade à sua linhagem e à sua história. Com o tombamento agora, damos continuidade a esse legado e temos um território protegido pelo Iphan.””
O processo de tombamento teve início em 2024, quando a própria comunidade solicitou o reconhecimento. Desde então, o Iphan trabalhou em conjunto com os moradores para catalogar as referências culturais do local. João Henrique dos Santos, superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, comentou que o tombamento aproxima o Estado da comunidade:
““A principal mudança é a presença do Estado brasileiro mais próximo da comunidade. O processo identifica as referências culturais e define ações de salvaguarda para que essas tradições continuem existindo dentro da comunidade e para as futuras gerações.””
Um dos principais símbolos culturais da comunidade é a Igreja de São Benedito, construída em 1919 e já tombada como patrimônio histórico. O prédio passa por restauração e será o centro de um novo complexo comunitário, que incluirá uma praça, um centro de atendimento à comunidade e a reforma do salão de eventos, com investimento de mais de R$ 2,2 milhões. Adanilton Faustino de Souza Júnior, gerente de projetos da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul), informou que a prioridade foi a restauração da igreja, especialmente com o centenário de Tia Eva se aproximando.
A arquiteta Raíssa Almeida Silva, moradora da comunidade e envolvida no levantamento histórico, expressou a emoção da comunidade com o tombamento:
““É um reconhecimento que a gente recebe com muita gratidão. A comunidade está muito emocionada. Muitas pessoas de Campo Grande ainda não conhecem a história de Tia Eva, e agora essa história ganha visibilidade.””
Com o tombamento, a Comunidade Tia Eva passa a integrar oficialmente o patrimônio cultural brasileiro, fortalecendo a preservação de sua história e tradições. Tia Eva, nascida Eva Maria de Jesus, foi uma mulher negra que conquistou sua liberdade no final do século XIX e fundou a comunidade em 1905, tornando-se uma figura central na história local.


