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Canais misóginos no YouTube Brasil acumulam 23 milhões de inscritos

Amanda Rocha
Tempo: 3 min.

Um levantamento do NetLab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais) da UFRJ revelou que pelo menos 123 canais brasileiros que disseminam conteúdo misógino estão ativos no YouTube. Esses canais somam mais de 23 milhões de inscritos e têm cerca de 130 mil vídeos publicados.

Os dados foram divulgados na segunda-feira, 9 de março de 2026, logo após o Dia Internacional da Mulher. O estudo atualiza um levantamento feito em 2024, que mapeou 137 canais. Desde então, apenas 14 canais foram removidos, seja por iniciativa dos donos ou da plataforma. Além disso, 20 canais mudaram de nome, mas continuam a produzir conteúdo misógino sob novas denominações.

O NetLab destacou que, apesar das remoções, os canais restantes ganharam novos seguidores. A quantidade de inscritos aumentou 18,5% desde abril de 2024, com mais de 3,6 milhões de novas assinaturas. Os vídeos desses canais também geram receita para seus criadores, com cerca de 80% utilizando alguma estratégia de monetização, como anúncios e programas de membros.

““Não é só a opinião deles, mas também é uma oportunidade de ganhar dinheiro, pautada na humilhação, inferiorização, na subjugação de mulheres,””

afirmou Luciane Belín, pesquisadora do NetLab. Ela explicou que o grupo desenvolveu um protocolo para identificar diferentes tipos de discurso misógino, abrangendo não apenas o ódio e a violência direta, mas também sentimentos de desprezo e a ideologia que subestima as mulheres.

O relatório indicou que a popularização desses vídeos é um fenômeno recente. Embora o vídeo mais antigo tenha sido postado em 2021, 88% dos conteúdos foram publicados a partir desse ano, e mais da metade (52%) entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Desde então, cerca de 25 mil novos vídeos foram postados.

Para classificar os canais como misóginos, o estudo considerou aqueles que continham pelo menos três vídeos com manifestações de ódio às mulheres. O tema mais recorrente, que abrange 42% dos vídeos, foi “Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina.” Nessa categoria, foram incluídos vídeos que conclamam os homens a não se deixarem dominar pelas mulheres.

Luciane também observou que alguns influenciadores utilizam estratégias para disfarçar seu conteúdo, como substituições de palavras. Por exemplo, “mulher” é frequentemente trocada por “colher”, e mães solo são referidas como “msol”. Ela ressaltou a necessidade de mais responsabilização das plataformas, afirmando que a criminalização da misoginia poderia ajudar a minimizar esses discursos.

““Se é crime fora da internet, precisa ser crime dentro da internet,””

completou Luciane. A Google, responsável pelo YouTube, foi contatada, mas ainda não respondeu.

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