A Polícia Civil do Rio de Janeiro identificou indícios de cooperação entre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) em um projeto de expansão nacional da facção carioca. A informação foi revelada durante a Operação Contenção Red Legacy, deflagrada nesta quarta-feira (11).
De acordo com a polícia, o grupo atua com uma estrutura semelhante à de um cartel, com divisão territorial, conselhos de comando e articulação entre criminosos em diversos estados. A DCOC-LD (Delegacia de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro), responsável pela investigação, informou que o Comando Vermelho mantém um conselho nacional permanente para decisões estratégicas e conselhos regionais que executam determinações nas áreas dominadas.
A apuração também aponta articulação com outras facções do país, incluindo indícios de cooperação com o PCC. Durante coletiva de imprensa, o secretário de Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, afirmou que o grupo ampliou sua atuação nos últimos anos.
““O Comando Vermelho hoje não é mais um grupo criminoso somente traficante de drogas. O Comando Vermelho hoje age num esquema de cartel com atuação nacional e transnacional”,”
disse.
Segundo Curi, a investigação reuniu provas de alianças com outras organizações criminosas.
““Temos provas disso na investigação: o Comando Vermelho se aliou ao PCC e também a diversas outras facções criminosas atuantes em todo o país”,”
afirmou. O secretário também destacou que o modelo de atuação da organização inclui esquemas complexos de financiamento e lavagem de dinheiro.
De acordo com ele, diferentes fases da Operação Contenção já resultaram no bloqueio de cerca de R$ 15 bilhões ligados à facção.
““Isso não é movimentação de uma simples facção criminosa. O esquema que envolve essa organização é muito mais complexo e envolve políticos, maus agentes públicos e uma teia criminosa muito grande”,”
declarou.
Curi classificou a organização como um grupo de caráter “narcoterrorista” e disse que o tipo de armamento e tática utilizados pelos criminosos ultrapassa o padrão do crime organizado tradicional.
““Eles utilizam armamentos que muitas vezes as polícias não podem usar, como fuzis .50 e .30, granadas e drones que lançam explosivos. O que enfrentamos hoje no Rio de Janeiro já é uma questão de segurança nacional”,”
afirmou.
Os investigadores também apontaram que, mesmo após quase três décadas no sistema prisional, Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, continua exercendo influência na estrutura de comando da facção, sendo apontado como integrante do conselho federal permanente do grupo. Outros integrantes com funções estratégicas foram identificados, como Edgar Alves de Andrade, o Doca, principal liderança nas ruas; Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, responsável pela gestão financeira; e Carlos da Costa Neves, o Gardenal, operador de determinações da cúpula.
A investigação também indicou a participação de familiares de Marcinho VP no funcionamento da organização. A polícia informou que Márcia Gama, esposa do traficante, atuaria na intermediação de interesses da facção fora do sistema prisional. Landerson, sobrinho do criminoso, seria responsável por conectar lideranças da facção a integrantes que atuam nas comunidades e a atividades econômicas exploradas pelo grupo, como serviços e imóveis. Ambos são considerados foragidos.
Outro eixo da investigação aponta tentativa de influência política em áreas dominadas pelo tráfico. O vereador Salvino Oliveira (PSD-RJ) teria negociado com o traficante Doca autorização para realizar campanha eleitoral na comunidade da Gardênia Azul, na Zona Oeste do Rio, área sob domínio do Comando Vermelho. Em contrapartida, o parlamentar teria articulado benefícios ao grupo apresentados publicamente como ações voltadas à população local.
A operação também cumpriu mandados contra policiais militares investigados por participação no esquema. A Polícia Militar informou que a Corregedoria acompanhou a Polícia Civil no cumprimento de mandados de prisão temporária e de busca e apreensão contra seis PMs. Os agentes foram levados para a Cidade da Polícia e depois serão transferidos para a unidade prisional da corporação em Niterói.
O advogado Flávio Fernandes, que defende Márcia Gama, afirmou que ainda não teve acesso aos documentos da investigação, mas disse confiar na Justiça. A defesa informou que Márcia estava viajando “como pessoa livre” desde segunda-feira (9) e que deverá se apresentar às autoridades. A assessoria de imprensa do vereador Salviano Oliveira informou que o gabinete não recebeu comunicação oficial sobre o caso e aguarda esclarecimentos das autoridades.
Ao todo, sete pessoas foram presas na operação. As investigações continuam para aprofundar a responsabilização penal dos envolvidos e avançar no combate às estruturas financeiras e operacionais do Comando Vermelho.


