O biólogo Júlio César Souza observou uma interação curiosa entre formigas e uma espécie de cigarrinha conhecida como soldadinho (Enchophyllum cruentatum) durante uma caminhada no Parque Ecológico Municipal Dr. Cyro de Luna Dias, em Santa Rita do Sapucaí (MG). Ao apoiar seu celular em uma pedra para tirar uma foto, ele foi surpreendido pela cena.
“Fiquei muito feliz por presenciar este momento, mais ainda por ter sido o primeiro encontro com essa espécie”, relatou o biólogo. O soldadinho, apesar de seu nome, é um inseto da família dos membracídeos, parentes das cigarras, e pode ser confundido com borboletas por quem não conhece.
Os soldadinhos possuem uma metamorfose incompleta, passando do estágio de ovo direto para o de ninfa, antes de se tornarem adultos. Ao contrário das borboletas, que têm uma fase de pupa, os soldadinhos necessitam de proteção durante a fase de ninfa, pois não possuem um casulo que os proteja.
As formigas entram em cena como parceiras estratégicas, pois se alimentam da substância açucarada excretada pelos soldadinhos, chamada de honeydew, e, em troca, defendem as ninfas de predadores. No vídeo gravado por Júlio, é possível observar três grupos: as formigas, as ninfas (indivíduos esbranquiçados) e os adultos (com coloração preta e laranja).
O biólogo e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Douglas Henrique Bottura Maccagnan, explica que essa interação também ajuda a evitar doenças nas plantas. “Ao retirar o excesso do honeydew, as formigas impedem a proliferação de fungos chamados de fumagina, que podem ser prejudiciais”, afirmou.
Além disso, as formigas costumam tocar as cigarrinhas com pernas e antenas, estimulando a liberação do líquido adocicado. “É uma linda relação que demonstra a complexidade das interações naturais”, comentou Maccagnan.
A família dos membracídeos é conhecida pela diversidade de formas. O nome popular “soldadinho” se deve a uma placa dorsal no corpo do inseto, chamada pronoto, que em algumas espécies lembra um capacete militar. Essa estrutura serve para camuflagem, imitando espinhos, ramos secos ou outros insetos para enganar predadores.
De acordo com o Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil, existem 704 espécies dessa família registradas no país. O Enchophyllum cruentatum é nativo do Brasil e possui poucos registros documentados, apenas 17 na plataforma de ciência cidadã iNaturalist.

