Um novo estudo investiga a possível ligação entre medicamentos à base de semaglutida e a neuropatia óptica isquêmica, uma condição que pode levar à perda significativa da visão. A pesquisa foi publicada no British Journal of Ophthalmology e analisou milhões de registros de efeitos adversos.
Os pesquisadores sugerem que o risco pode variar conforme a formulação do medicamento e o gênero do paciente. No entanto, os autores ressaltam que os dados não permitem afirmar que os remédios causam o problema, apenas indicam uma possível associação que precisa ser confirmada por novos estudos.
A investigação foi realizada com base em notificações de efeitos colaterais registradas no Sistema de Notificação de Eventos Adversos da FDA, que reúne relatos de médicos, pacientes e fabricantes sobre reações indesejadas associadas a medicamentos. Foram avaliados mais de 30 milhões de registros entre dezembro de 2017 e dezembro de 2024, dos quais 31.774 estavam relacionados a medicamentos à base de semaglutida.
Os pesquisadores focaram em três medicamentos: Ozempic, para diabetes tipo 2; Wegovy, indicado para obesidade; e Rybelsus, um comprimido oral para diabetes tipo 2. Também foram analisados registros de tirzepatida, comercializada como Mounjaro e Zepbound.
Entre os relatos, 3.070 estavam associados ao Wegovy e 20.608 ao Ozempic. O Wegovy, apesar de ter menos registros, foi o mais associado à neuropatia óptica isquêmica, com 28 relatos, enquanto o Ozempic teve 47 relatos. As formas genéricas de semaglutida totalizaram 85 casos. Nenhum caso foi registrado entre usuários de Rybelsus.
Os dados mostraram que o sinal de associação foi mais forte com Wegovy entre homens (116 vezes maior) e com Ozempic entre mulheres (quase 27 vezes maior). Os autores discutem hipóteses para esses achados, incluindo a dose do medicamento e o nível de exposição do organismo.
O endocrinologista Paulo Augusto Carvalho Miranda, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), alerta que os resultados devem ser interpretados com cautela. Ele destaca que o estudo se soma a outras pesquisas sobre o tema, mas a maioria tem caráter observacional.
A Novo Nordisk, fabricante dos medicamentos, afirmou que monitora continuamente a segurança dos pacientes e que a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) recomendou a atualização das bulas para incluir a neuropatia óptica isquêmica como um possível efeito adverso, considerando que se trata de um evento muito raro.

