Pesquisadores descobriram lixo plástico na ilha de Trindade, localizada a mais de mil quilômetros do litoral do Espírito Santo. Essa é a primeira ocorrência desse tipo de material na remota ilha, que já havia sido identificada como um local de formação de rochas plásticas.
As chamadas “rochas plásticas” são formadas por polímeros derretidos misturados a areia, conchas e fragmentos minerais. Esse fenômeno foi estudado pela geóloga brasileira Fernanda Avelar Santos, que atualmente realiza pós-doutorado na Universidade Estadual Paulista. A descoberta sugere que resíduos produzidos pela atividade humana podem se integrar aos processos naturais de formação de rochas e permanecer no planeta por milhares ou até milhões de anos.
As formações encontradas na ilha de Trindade se assemelham a rochas típicas de ambientes costeiros, mas análises laboratoriais revelaram a presença de plástico. Polímeros como polietileno e polipropileno atuam como um tipo de “cimento”, unindo os fragmentos naturais. Essas rochas se formam quando resíduos plásticos acumulados nas praias são submetidos a altas temperaturas, muitas vezes após serem queimados.
Os resultados são estruturas conhecidas como plastiglomerados e plastistones. O plastiglomerado é formado pela mistura de sedimentos naturais e plástico fundido, enquanto o plastistone pode conter mais de 90% de plástico em sua composição.
A ilha de Trindade, apesar de ser praticamente desabitada, recebe grandes quantidades de lixo marinho trazido pelas correntes oceânicas. A área é influenciada pelo Giro do Atlântico Sul, que transporta detritos de diversas partes do planeta, incluindo cordas e redes usadas na navegação comercial e na pesca industrial.
Além do impacto visual e ambiental, a fragmentação das rochas plásticas gera partículas menores, conhecidas como piroplásticos, que podem ser transportadas pelo vento e pela maré, espalhando microplásticos ao longo da costa. Pesquisas recentes mostram que fragmentos de plástico já foram encontrados em ninhos de tartarugas-verdes na ilha, o que pode afetar o ecossistema local e expor filhotes a contaminantes.
A presença dessas rochas plásticas também levanta discussões sobre a definição de uma nova era geológica, o Antropoceno, onde as atividades humanas se tornaram a principal força de transformação do planeta. Para que essa nova época seja reconhecida, é necessário identificar sinais claros nas camadas sedimentares da Terra. Os fragmentos de plástico nas rochas podem servir como evidência física da presença humana no registro geológico.
Pesquisadores realizam experimentos em laboratório para simular as condições ambientais que as rochas enfrentariam ao longo do tempo. Os resultados preliminares sugerem que o plástico pode permanecer preservado por longos períodos, especialmente quando protegido por sedimentos. A discussão sobre o reconhecimento oficial do Antropoceno deve continuar por vários anos.


