Um estudo publicado na revista científica New Phytologist nesta quinta-feira (12) aponta que áreas úmidas do Cerrado podem armazenar cerca de 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare, até seis vezes mais do que a densidade média encontrada na Amazônia.
A pesquisa foi liderada pela Larissa Verona, em colaboração com cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos), Instituto Max Planck (Alemanha) e Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Este é o primeiro estudo detalhado sobre os estoques de carbono nos solos do Cerrado, especificamente nas áreas conhecidas como veredas e campos úmidos.
Os pesquisadores coletaram amostras de solo de até quatro metros de profundidade, superando estudos anteriores que analisaram apenas camadas superficiais de 20 centímetros a um metro, resultando em uma subestimação do carbono total em até 95%.
A análise revelou que parte do carbono encontrado é extremamente antigo. Testes de datação por radiocarbono mostraram que o material orgânico presente nesses solos tem uma idade média de cerca de 11 mil anos, com registros que ultrapassam 20 mil anos. “Esse carbono levou muito tempo para se acumular. Se ele for perdido, não podemos reconstruí-lo rapidamente, como ocorre com uma floresta que pode ser replantada”, afirmou Larissa Verona.
O Cerrado, que ocupa cerca de 26% do território brasileiro, é o segundo maior bioma da América do Sul e abriga as nascentes de aproximadamente dois terços das grandes bacias hidrográficas do país. “As condições úmidas dos campos e veredas criam falta de oxigênio, o que desacelera a decomposição de plantas e outros resíduos”, explicou Amy Zanne, coautora do estudo.
Os pesquisadores destacam que a importância do Cerrado para o clima global ainda é subestimada. “O enorme estoque de carbono do Cerrado não costuma ser incluído nos cálculos climáticos porque, até recentemente, não sabíamos que ele estava ali”, disse Amy Zanne.
A expansão da agricultura, a drenagem de áreas úmidas e a retirada de água para irrigação são algumas das principais ameaças ao bioma. Quando o solo seca, o material orgânico se decompõe rapidamente, liberando dióxido de carbono e metano, gases que contribuem para o aquecimento global. “Se começarmos a drenar essas turfeiras e liberar esse carbono acumulado, lançaremos bombas de carbono na atmosfera”, alertou Rafael Oliveira, professor da Unicamp.
Cerca de 70% das emissões anuais de gases de efeito estufa desses ambientes ocorrem durante a estação seca, quando a decomposição se acelera. Com o aumento das temperaturas e períodos secos mais longos, a tendência é que uma maior quantidade de carbono armazenado no solo seja liberada nos próximos anos.
O Cerrado já enfrenta pressões crescentes devido às mudanças no uso do solo. Os autores do estudo defendem a ampliação da proteção das áreas úmidas e o reconhecimento de seu papel climático. Apesar da legislação brasileira prever proteção para esses ambientes, estima-se que até metade dessas áreas já sofreu algum tipo de degradação. “Chamamos o Cerrado de bioma de sacrifício, porque o Brasil quer proteger a Amazônia, mas também quer manter a agricultura”, concluiu Larissa Verona.


