O filme ‘O Agente Secreto’ chega à cerimônia do Oscar com quatro indicações. A produção volta ao Recife dos anos 1970 e narra histórias que ajudam a entender o Brasil daquela época.
A lenda da Perna Cabeluda, que assombrava os recifenses, é um dos elementos centrais. ‘Eu nunca encontrei, espero nunca encontrar um dia’, diz a bibliotecária Maria Eduarda Trajano. A professora Yasmin Luz complementa: ‘Imagina ver uma perna cabeluda, do nada na cozinha, de baixo da mesa. Horrível, horrível’.
A Perna Cabeluda apareceu nos anos 1970, sem dono e sem rumo, causando medo na população. ‘Fecha a porta, corre todo mundo. Era aquela loucura, todo mundo com medo, se trancava dentro de casa, ninguém abria a porta’, relata o auxiliar administrativo Felipe Oliveira. O professor Adamastor Santana acrescenta: ‘Na verdade, eu nunca vi. Mas quem já viu diz que não é uma coisa muito boa, não. Não é muito legal, entendesse?’.
Sidney Rocha, diretor do Arquivo Público de Pernambuco, explica que ‘certos elementos que saem um pouco do realismo fantástico terminam representando também um tipo de metáfora contra a violência contra a mulher, a violência contra o trabalhador’.
O clima de medo durante a ditadura militar também é retratado no filme. ‘Sabe aquela sensação estranha? É o que a gente sente ao caminhar pelo Recife de madrugada, no silêncio das ruas vazias. Parece que tem alguém observando tudo’, diz um morador. As histórias sem explicações se espalharam na época, e a perna cabeluda permanece na imaginação da cidade.
Kleber Mendonça Filho, diretor do filme, levou a perna cabeluda para o Parque 13 de Maio e para uma ponte centenária sobre o Rio Capibaribe. ‘Sim, eu queria muito trazer a perna cabeluda quase como uma assombração dentro do filme. E essa sequência tem sido muito comentada no mundo inteiro’, explica.
O sucesso do filme foi tanto que, em 2026, a perna cabeluda se tornou a sensação do carnaval do Recife e de Olinda. ‘As lendas e os mitos hibernam, passam um tempo assim escondidos, esquecidos e, em algum acontecimento, reaparecem com novas funções. Eles se refuncionalizam’, afirma a socióloga e folclorista Rúbia Lóssio.
O estudante Caio Barreira Malagueta elogia a inclusão da lenda no filme: ‘Terem colocado isso no filme foi uma ideia espetacular. E, assim, o filme traz isso da nossa cultura e trouxe para uma dimensão internacional. Independente de ser nacional ou internacional, eu amei’. A cerimônia do Oscar será transmitida no domingo (15), após o Fantástico.


