A Polícia Civil deflagrou a Operação Shadowgun para investigar a venda de armas e peças produzidas por impressoras 3D em plataformas de e-commerce no Brasil. A informação foi confirmada pela coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio, Letícia Emile, durante coletiva realizada na terça-feira (12).
Segundo Letícia, os investigadores detectaram anúncios e transações envolvendo componentes de armamentos em sites de comércio eletrônico. “A utilização dessas armas vem sendo constatada, inclusive pela polícia aqui do nosso estado, em apreensões já realizadas aqui. O que nos chamou atenção (…) foi que eles comercializavam essas peças e assessórios em plataformas de e-commerce”, afirmou.
A promotora destacou que foram identificadas aproximadamente 75 transações no Mercado Livre envolvendo a compra e venda dessas peças. “Para além da consultoria, foram identificadas essas compras”, acrescentou Letícia. O Ministério Público expressou preocupação com o acesso ao armamento, especialmente por adolescentes que utilizam essas plataformas.
Parte dos compradores identificados possui ligação com atividades criminosas. “Esses compradores foram alvos de busca e apreensão em todo Brasil. Foi detectado que alguns desses compradores eram envolvidos com o crime organizado, seja no tráfico de drogas, seja em milícia, ou em homicídios”, contou Letícia.
As investigações revelaram que o grupo não apenas vendia armamentos, mas também comercializava o projeto digital necessário para fabricar as armas. O procurador-geral de Justiça do Rio, Antônio José Campos Moreira, informou que os suspeitos ofereciam instruções detalhadas e suporte técnico aos compradores. “Não são fábricas, são pessoas (…) que idealizaram um projeto digital e passaram, além de comercializar as armas fabricadas, passaram a comercializar esse projeto, oferecendo inclusive um tutorial e acompanhamento técnico”, explicou.
De acordo com o procurador, esse modelo permite que qualquer pessoa com acesso à tecnologia possa produzir armamento em casa. “Isso é extremamente preocupante porque permite que qualquer um a partir desse projeto digital e uma impressora 3D possa produzir, fabricar armas de fogo”, alertou.
Os investigadores também destacaram o baixo custo de fabricação dessas armas. O delegado Marcos Buss, da 32ª DP (Taquara), mencionou a carabina Urutau, desenvolvida por um brasileiro que usava o pseudônimo “Zé Carioca”. “Essa carabina pode ser fabricada integralmente por uma impressora 3D e custa cerca de R$ 800 para ser produzida”, afirmou.
Durante a coletiva, o procurador-geral de Justiça também alertou para o risco de disseminação dessas armas entre grupos radicais. Ele destacou que a facilidade de produção pode ampliar o acesso ao armamento fora de qualquer sistema de controle. “Esse grupo estimula pessoas, sobretudo, jovens a fazer e portar armas de fogo, com o argumento que esse seria um direito de todos. Isso é muito perigoso porque retira do Estado (…) qualquer possibilidade de controle”, disse.
A Operação Shadowgun, que visa desarticular um esquema interestadual de produção e venda de armamentos fabricados com impressoras 3D, resultou na prisão de quatro homens, incluindo o chefe da quadrilha. Agentes cumpriram cinco mandados de prisão e 36 de busca e apreensão em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outros nove estados. As investigações identificaram 79 compradores em todo o país, incluindo pessoas com antecedentes por tráfico de drogas, homicídio e outros crimes.


