O neurocientista Fernando Rossi explicou as alterações que ocorrem no cérebro de homens que agredem mulheres. Em entrevista para a série “Marcas”, da TV Globo, ele detalhou como o mecanismo de recompensa e a dormência do córtex pré-frontal influenciam o comportamento agressivo.
Rossi afirmou que, durante uma agressão, a amígdala cerebral é hiperativada, o que diminui a atividade do córtex pré-frontal, responsável pela racionalização e controle de impulsos. “No ato da agressão, ele hiperativa a amígdala cerebral, e isso é uma coisa já recorrente. E, na hora que ele hiperativa, torna o córtex pré-frontal, que julga, que administra, que controla os impulsos, menos ativo”, disse.
O neurocientista ressaltou que a compreensão do funcionamento do cérebro dos agressores não visa justificar a violência, mas sim mapear padrões neurais que podem ser modificados para quebrar ciclos de agressão. Ele destacou que o comportamento violento não é apenas uma questão cerebral, mas também está ligado à socialização e ao contexto machista que reforça atitudes agressivas.
“”O fato de o cérebro funcionar dessa forma não significa que isso seja uma justificativa para tal ação. Tudo começa antes do cérebro, começa no pensamento, no trabalho do sentimento, que isso vem desde a infância, se construindo”, afirmou Rossi.”
Rossi explicou que a amígdala é um centro de defesa e, quando ativada, pode “adormecer” outras áreas do cérebro. Ele mencionou que a falta de desenvolvimento do córtex pré-frontal ao longo da vida pode levar a um desbalanceamento, onde a amígdala prevalece sobre a racionalidade.
Além disso, ele observou que muitos agressores vêm de infâncias conturbadas, onde a violência foi normalizada. “Pesquisas mostram que o agressor vem de uma infância conturbada, uma infância onde ele tenha sofrido possíveis abusos, ou uma infância que foi cercada de violência”, explicou.
O neurocientista também abordou a questão do prazer que os agressores sentem ao praticar a violência, que é reforçado pela liberação de dopamina. “Se eu sou um agressor e tenho ideias machistas, na hora em que eu agrido aquela mulher e justifico para um grupo de conhecidos e algum deles dá o aval, vai reforçando esse prazer”, disse.
Para mudar esse comportamento, Rossi enfatizou a importância da vontade de mudança e da busca por terapias que tratem tanto agressores quanto vítimas. Ele destacou que a terapia cognitivo-comportamental pode trazer resultados positivos, ajudando a reativar áreas do cérebro que foram silenciadas.
“”A vontade é a condição sine qua non para qualquer mudança. Ingressar numa terapia, tanto o agressor como a vítima, porque a gente sempre pensa na vítima, mas o agressor também já foi vítima certamente, então ele precisa”, afirmou.”
Os dados sobre violência contra mulheres em Pernambuco são alarmantes. Em 2025, o estado registrou 88 feminicídios, um aumento de 15,8% em relação a 2024. Rossi comentou sobre a falta de ressocialização adequada para homens presos por crimes de violência, ressaltando que a punição deve ser construtiva e reeducativa.
No Recife, mulheres vítimas de violência podem buscar atendimento em diversos centros especializados, como o Centro de Referência Clarice Lispector e o Serviço Especializado e Regionalizado (SER) Clarice Lispector, além de um Plantão WhatsApp disponível 24 horas.
As denúncias de violência podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, ou pelo Disque-Denúncia da Polícia Civil, no número (81) 3421-9595.


