Trabalho é a maior fonte de estresse na vida moderna, aponta estudo

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

Um estudo da Universidade de Zurique, na Suíça, publicado na revista Psychological Science, revelou que o trabalho é a maior fonte de estresse na vida moderna. A pesquisa analisou mais de 4 mil participantes suíços, com idades entre 15 e 79 anos, antes e durante a pandemia de Covid-19, iniciada em 2020.

Os resultados mostraram que quase um terço (32%) das decisões consideradas estressantes estão relacionadas ao trabalho. Aceitar um novo emprego lidera o ranking, seguido por pedir demissão, saber como investir o próprio dinheiro, dirigir, tornar-se autônomo e comprar uma casa. Outras decisões estressantes incluem fazer uma cirurgia, casar-se, tomar vacina e mudar-se para outro país.

O padrão de estresse se manteve ao longo dos anos de pesquisa e entre diferentes faixas etárias, mas algumas nuances foram observadas. Com o avanço da idade, aceitar um novo emprego se tornou mais arriscado, enquanto pedir demissão sem garantia de recolocação apareceu com menos frequência. Entre as mulheres, decisões ligadas à formação e casamento foram mais frequentes; entre os homens, cirurgia, viagem e aceitar novas tecnologias ganharam destaque, especialmente entre aqueles com mais de 60 anos.

Os autores do estudo alertam que, como a amostra foi composta apenas por pessoas da Suíça, um país com alta estabilidade social e segurança, os resultados não devem ser generalizados para outras culturas. No entanto, os dados oferecem uma visão sobre o comportamento contemporâneo.

No Brasil, 60% dos trabalhadores pensam em pedir demissão com frequência, segundo a 3ª edição da pesquisa Engaja S/A, que entrevistou mais de 5 mil pessoas. Em 2025, 64% dos entrevistados se candidataram a novas vagas, motivados pelo baixo engajamento no trabalho, que é impulsionado por cansaço, desconfiança e sensação de estagnação.

““O trabalho concentra múltiplas fontes de vulnerabilidade ao mesmo tempo: renda, identidade, pertencimento social, rotina diária e sensação de utilidade”, disse o psicólogo Paulo Cesar Porto Martins, doutor em psicologia clínica e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).”

Martins explica que mudar de emprego se torna um “risco sistêmico”, pois pode afetar várias áreas da vida simultaneamente. Aceitar uma nova vaga envolve incertezas, possibilidade de perda e impacto na identidade. “Grandes decisões identitárias sob incerteza costumam ser vividas como pontos de não retorno, o que aumenta a ativação fisiológica do estresse”, acrescentou.

O psiquiatra Daniel Oliva, do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, destacou que, diante de decisões importantes, o cérebro ativa um modo de sobrevivência. “Quando se está sob pressão, o cérebro entra em um modo de resposta rápida ao risco, onde áreas mais reflexivas perdem espaço para respostas rápidas e intuitivas”, explicou.

Nem todos reagem da mesma forma a decisões arriscadas. Algumas pessoas podem travar diante da incerteza, enquanto outras podem adiar indefinidamente a decisão, o que pode levar a um ciclo de ruminação e estresse crônico. “O termômetro é o quanto isso afeta o dia a dia e a qualidade de vida”, orientou Oliva.

Os especialistas sugerem algumas estratégias para tornar decisões grandes mais leves: decidir descansado, reduzir estimulantes, dividir decisões em microdecisões, escrever cenários realistas, questionar pensamentos catastróficos, conversar com alguém de confiança e cuidar do corpo.

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