Na última semana, o noticiário corporativo brasileiro destacou o início de processos de recuperação extrajudicial por duas grandes empresas: o GPA (Grupo Pão de Açúcar) e a Raízen. O GPA anunciou seu plano na terça-feira (10) e a Raízen na quarta-feira (11). Essas iniciativas visam renegociar dívidas bilionárias com credores, utilizando um processo menos amplo que a recuperação judicial tradicional.
De acordo com o OBRE (Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial), nos últimos 20 anos, foram registrados 288 casos de recuperação extrajudicial, com um recorde de 78 processos em 2025. Este ano, já são sete. O processo da Raízen é considerado o maior da história do Brasil. Juliana Biolchi, diretora do OBRE, comentou:
““Temos uma questão muito fundamental aqui, que são os problemas econômicos que a gente está atravessando e, no caso da recuperação extrajudicial, os casos estão subindo, mas eu não vejo isso como algo necessariamente negativo.””
O Brasil também enfrenta um aumento nas recuperações judiciais, com 5.680 empresas em processos desse tipo ao final de 2025, segundo a RGF & Associados. A alta das taxas de juros, que desde junho estão em 15% ao ano, tem contribuído para esse cenário. Rodrigo Gallegos, sócio da RGF, afirmou:
““Hoje, com a Selic rodando a 15% ao ano, a conta matemática não fecha.””
Além disso, a Selic é apenas o piso, pois os bancos embutem o prêmio de risco, elevando o custo real da dívida para até 30% ao ano em situações críticas. Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, destacou que o prazo entre a entrada e a saída dos processos de recuperação é preocupante, assim como a baixa taxa de recuperação de créditos inadimplentes no Brasil.
O cenário de juros altos também limita as margens para renegociação de dívidas, forçando empresas a buscar recuperação judicial. Renato Donatti, diretor sênior na Fitch Ratings, observou que
““credores acabam adotando uma postura mais dura nas negociações.””
Júlio Moretti, CEO da NEOT, apontou questões estruturais que impactam as empresas, como mudanças no comportamento do consumidor e custos de insumos. Em 2025, o agronegócio registrou um recorde de 1.990 pedidos de recuperação judicial, conforme a Serasa Experian. Osana Mendonça, sócia da KPMG, destacou que
““o setor depende de muitos fatores externos que fogem ao controle do empresário.””
Os especialistas ressaltam que a mentalidade em relação à recuperação judicial precisa mudar. Rodrigo Gallegos afirmou que
““o que realmente vira o jogo é a reorganização profunda da operação, dos produtos e do modelo de negócio.””
A Fitch também observou que algumas empresas se prepararam adequadamente e agora têm balanços mais fortes para enfrentar a incerteza econômica.


