Mais de quarenta anos após a Revolução de 1979, a República Islâmica do Irã enfrenta a crise mais grave de sua história. Ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel resultaram na morte do Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, e de outros altos comandantes militares, além de danificarem infraestrutura essencial.
Washington e Tel Aviv deixaram claro que desejam uma mudança de regime, incentivando os iranianos a derrubar seu governo. No entanto, especialistas afirmam que o Irã construiu deliberadamente uma estrutura de poder robusta e duradoura, difícil de ser desmantelada.
Desde a derrubada da monarquia iraniana, a República Islâmica desenvolveu um sistema político projetado para resistir a crises. Esse sistema combina instituições rigidamente controladas, doutrinação ideológica, coesão das elites e uma oposição fragmentada. “É uma estrutura semelhante à Hidra: você corta uma cabeça e outras crescem”, diz Sébastien Boussois, pesquisador de Oriente Médio no Instituto Geopolítico Europeu, na Bélgica.
No último domingo, Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, foi escolhido como seu sucessor, menos de duas semanas após a morte do pai. Espera-se que ele mantenha a linha dura adotada por seu pai.
Ao contrário de países do Oriente Médio ou do Norte da África, como Tunísia, Egito e Síria, onde líderes foram derrubados, o Irã conseguiu resistir mais eficazmente a pressões externas devido a um aparato de segurança fortemente motivado por ideologia. Segundo Bernard Hourcade, ex-diretor do Instituto Francês de Pesquisa no Irã, o país não funciona como uma ditadura tradicional centrada em um único líder, mas como uma “poliditadura”: uma aliança entre defensores do islamismo político e um intenso nacionalismo iraniano.
O poder é distribuído entre diversas esferas — instituições clericais, forças armadas e setores estratégicos da economia — o que torna o sistema muito mais difícil de derrubar do que regimes baseados em um líder único. Entre os órgãos mais influentes está o Conselho dos Guardiões, responsável por vetar leis e filtrar candidatos para as eleições, reduzindo ainda mais as chances de qualquer facção desafiar seriamente o Estado.
Embora o Irã seja amplamente classificado como uma autocracia, oferece aos cidadãos a possibilidade simbólica de votar em algumas eleições, incluindo a escolha do presidente. No entanto, o processo é rigidamente controlado, com candidatos avaliados pelo Conselho dos Guardiões segundo critérios como lealdade à República Islâmica.
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), que atua paralelamente ao exército regular, é frequentemente descrito como a “espinha dorsal do regime”. Além de sua função militar, a Guarda tornou-se uma potência política e econômica, com vastos interesses empresariais e influência exercida por meio da milícia Basij, uma organização paramilitar voluntária. As forças de segurança permaneceram unificadas diante de sucessivas ondas de protestos, e a coesão está profundamente ligada à ideologia.
Grande parte da economia iraniana é controlada por organizações ligadas ao Estado, como as bonyads — fundações de caridade que, ao longo do tempo, passaram a comandar milhares de empresas em diversos setores. Essas redes distribuem empregos e contratos a grupos leais ao regime. O vasto império empresarial da Guarda Revolucionária reforça esse sistema de patronagem.
A religião também desempenha um papel central na preservação do poder no Irã. A revolução estabeleceu uma rede duradoura de instituições religiosas, políticas e educacionais que continuam moldando a visão de mundo do Estado. Historicamente, a oposição iraniana tem sido marcada pela fragmentação, reunindo reformistas, monarquistas, grupos de esquerda e movimentos da diáspora.
O Irã mantém um dos sistemas de vigilância mais sofisticados da região, com frequentes desligamentos da internet e monitoramento por Inteligência Artificial. Por muitos anos, a população hesitou em pressionar por uma mudança de regime, mas esse cálculo mudou, especialmente após a brutal repressão de janeiro contra uma nova onda de protestos.
Analistas afirmam que regimes autoritários tendem a cair quando três condições se alinham: mobilização em massa, divisões entre as elites governantes e deserções das forças de segurança. Embora o fim da República Islâmica seja considerado inevitável, a cronologia desse evento permanece incerta.


