‘O Agente Secreto’ revela a difusão do terror na ditadura, afirma psicanalista

Amanda Rocha
Tempo: 3 min.

O filme ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho, e ‘Ainda Estou Aqui’, de Walter Salles, destacam-se nas principais premiações internacionais, incluindo o Oscar. Ambos os longas-metragens têm gerado discussões sobre a ditadura militar no Brasil, que começou com o golpe de 1964.

O psicanalista Rafael Alves Lima, professor de História e Filosofia da Psicologia na USP, enfatiza que o silêncio era uma marca do sofrimento psicológico durante a ditadura, que perdurou até 1985. Ele afirma: ‘Quando as circunstâncias políticas suspendem a liberdade da palavra, falar e escutar torna-se temerário’. Lima participou de projetos que abordam o testemunho de quem viveu o terror da ditadura e da violência policial contemporânea.

“‘Quando o Estado não se responsabiliza pelos crimes que comete, o trauma tende a se eternizar e a se repetir’, diz Lima.”

O especialista ressalta a importância das políticas de memória, verdade e justiça para trazer à tona a dimensão psicológica do trauma. Ele acredita que a escuta do sofrimento deve considerar o contexto histórico e os conflitos sociais.

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Em sua análise, Lima discute como o silêncio sob regimes autoritários leva a um retraimento subjetivo e a uma autocensura. Ele menciona a música ‘Na hora do almoço’, de Belchior, que retrata a angústia e a desesperança da época.

“‘A desesperança prolongada obscurece o sentido das coisas — a morte do futuro se torna a antessala da depressão’, afirma.”

Sobre as marcas psíquicas deixadas pela tortura, Lima destaca que a experiência é avassaladora e desorganiza a orientação do sujeito no tempo e no espaço. Ele menciona a ex-presidenta Dilma Rousseff, que relatou que a dor física extrema impede a consciência.

“‘Quando o Estado não se responsabiliza pelos crimes que comete, o trauma tende a se eternizar e a se repetir’, reitera Lima.”

O desaparecimento forçado de pessoas gera um luto infinito, que impede que as famílias sigam suas vidas. Lima compara essa situação à pandemia de covid-19, onde a falta de rituais de despedida é vivida como trágica.

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Ele também discute a função dos sonhos durante a ditadura, que servem como um ‘termômetro político’. Lima afirma que sonhar é uma forma de resistir e reafirmar a vida em um cenário de opressão.

“‘Sonhar é resistir porque é também esperançar’, conclui.”

No filme ‘O Agente Secreto’, o personagem Marcelo, interpretado por Wagner Moura, enfrenta abusos de uma figura poderosa, mesmo sem ter propósitos de confrontação ao regime. Lima observa que a ditadura era marcada por perseguições arbitrárias, afetando não apenas militantes, mas também cidadãos comuns.

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