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Agronegócio

Mudança no biodiesel dos EUA pode impactar mercado global de soja

Amanda Rocha
Última atualização: 15 de março de 2026 09:52
Amanda Rocha
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Tempo: 6 min.
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Uma disputa entre as indústrias de biocombustíveis e de petróleo nos Estados Unidos pode provocar mudanças relevantes no mercado global de soja. A proposta da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) para ampliar o mandato de combustíveis renováveis deve elevar a demanda por óleo de soja, estimular o esmagamento do grão e gerar efeitos em cadeia nas cotações internacionais.

A discussão ocorre no âmbito do RFS (Padrão de Combustíveis Renováveis), em que a proposta apresentada pela EPA em junho de 2025 prevê ampliar significativamente o volume obrigatório de mistura de biocombustíveis nos combustíveis fósseis. Pelo texto em análise, o mandato total subiria para 24,02 bilhões de galões em 2026 e 24,46 bilhões em 2027, acima dos 22,33 bilhões previstos para 2025.

O maior avanço ocorreria no diesel à base de biomassa, que poderia saltar de 3,35 bilhões de galões em 2025 para 5,61 bilhões em 2026, um aumento de cerca de 67%. Se confirmada, a medida pode substituir aproximadamente 150 mil barris por dia de diesel de petróleo, o equivalente a cerca de 2% do consumo total de diesel dos Estados Unidos.

O aumento da mistura exigiria um volume maior de matérias-primas para produção de biocombustíveis. De acordo com o levantamento da HedgePoint, a proposta pode gerar uma demanda adicional de cerca de 250 milhões de galões de insumos por ano, o equivalente a aproximadamente 5 milhões de toneladas de soja processada. Esse volume representa cerca de 4% da produção atual de soja dos Estados Unidos e tende a fortalecer o mercado do grão americano.

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A expansão da demanda doméstica nos Estados Unidos já começa a redesenhar o mercado internacional. A expectativa é de aumento da capacidade de esmagamento no país, que pode passar de 69,4 milhões para 74,5 milhões de toneladas até 2026. Com maior procura por óleo de soja, matéria-prima central para biodiesel e diesel renovável, o efeito esperado é uma valorização do complexo da soja, com reflexos também sobre o farelo e os custos da cadeia de alimentos.

Com mais soja sendo processada internamente, cresce a produção de farelo, o que pode pressionar preços do produto caso as exportações americanas não avancem no mesmo ritmo. Isso tende a intensificar a concorrência com o Brasil no mercado global de ração animal. Ao mesmo tempo, a maior utilização de soja para energia reduz a disponibilidade de grão para exportação, alterando fluxos comerciais e reforçando o papel da política energética dos Estados Unidos como um dos principais vetores dos preços agrícolas globais.

Outro ponto em discussão é a mudança no modelo de contabilização dos mandatos. A proposta prevê que os volumes passem a ser medidos por RINs (Números de Identificação de Combustíveis Renováveis), certificados atribuídos a cada galão de biocombustível produzido. Pelas novas regras, biocombustíveis feitos com matérias-primas importadas, como óleo de cozinha usado da China ou sebo bovino do Brasil, gerariam apenas metade dos créditos em comparação com aqueles produzidos com insumos domésticos.

Essa mudança tende a favorecer diretamente a soja americana e aumentar a rentabilidade das indústrias de esmagamento. Segundo informações da Agrinvest, o mercado já reage às expectativas sobre as novas regras do RFS. Investidores aguardam a decisão final da EPA sobre o mandato de aproximadamente 5,4 bilhões de galões, além da realocação das isenções concedidas a pequenas refinarias.

Para Aaron Edwards, da empresa americana Santos Springs, o mandato pode desencadear um efeito em cadeia no mercado agrícola. Segundo ele, o impacto inicial tende a aparecer nos preços do diesel renovável e do óleo vegetal, depois ser observado pelo farelo e, por fim, pelo grão de soja. Edwards avalia que a decisão também tem forte componente político, já que tanto o setor de petróleo quanto o agronegócio possuem grande influência nas discussões no governo americano.

“O cenário ainda pode ser afetado pela trajetória dos preços do petróleo”, informou. Caso a proposta seja aprovada antes do plantio da safra de soja americana, que tem início no mês de abril, os efeitos podem surgir rapidamente no mercado americano. Se a decisão for adiada, as mudanças devem ocorrer a partir da safra do próximo ano.

Na avaliação de Edwards, o aumento da demanda por biocombustíveis não vai beneficiar somente a soja americana, mas também pode favorecer outros grandes produtores de soja. “Ao destinar mais grãos para consumo interno, os Estados Unidos tendem a reduzir a oferta de soja para exportação, abrindo espaço para países da América Latina ampliarem sua presença no comércio internacional”, informou.

Em cenários de preços pressionados, acrescenta o analista, é comum que parte da produção agrícola seja direcionada para a fabricação de combustíveis e ração animal, criando oportunidades de negócios no mercado global de grãos.

TAGGED:Aaron EdwardsAgrinvestAgroAgronegóciobiodieselEPAEstados UnidosHedgePointSantos SpringsSoja
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