O estresse térmico tem causado impactos significativos na produtividade da pecuária, afetando o ganho de peso, a produção e a eficiência reprodutiva dos rebanhos. As perdas podem variar entre 5% e 15% no desempenho produtivo, enquanto as taxas de concepção podem registrar reduções entre 20% e 50%.
Segundo Caio Borges, médico veterinário da Biogénesis Bagó, o problema ocorre quando a capacidade do animal de dissipar calor é superada pelas condições ambientais, especialmente em cenários de altas temperaturas, umidade elevada e radiação solar intensa.
““Nessas situações, o organismo dos bovinos passa a acionar mecanismos fisiológicos para tentar manter o equilíbrio da temperatura corporal”,”
destacou o veterinário.
Entre as principais reações dos animais estão o aumento das frequências respiratória e cardíaca, maior ingestão de água e a busca constante por áreas de sombra. Os bovinos também tendem a apresentar maior inquietação e reduzir o consumo de alimentos.
““O organismo animal tenta se adaptar ao calor. Com isso ocorre aumento do metabolismo, que consome mais energia, e ao mesmo tempo o animal reduz a ingestão de alimentos, entrando em balanço energético negativo”,”
explica Borges.
A redução no consumo alimentar gera déficit energético e favorece o estresse oxidativo, resultando em menor ganho de peso, queda na produção de leite e piora significativa da eficiência reprodutiva. A avaliação do risco de estresse térmico não depende apenas da temperatura ambiente. O indicador mais utilizado é o índice de temperatura e umidade conhecido como THI (Índice de Temperatura e Umidade), que considera também a umidade do ar.
Na pecuária leiteira, perdas mensuráveis começam a ocorrer quando o índice varia entre 68 e 72. Já nos bovinos de corte, especialmente em animais zebuínos, o limiar costuma ser um pouco maior, mas pode se tornar crítico em sistemas intensivos, como confinamentos, ou em animais mais pesados quando o THI se aproxima de 74. Nos Estados Unidos, as perdas associadas ao estresse térmico ultrapassam 1,7 bilhão de dólares por ano.
Pesquisas recentes têm demonstrado que medidas simples de manejo podem reduzir significativamente os efeitos do calor sobre os bovinos. Um estudo conduzido pela Minerva Foods em parceria com o Welfare Footprint Institute mostrou que a oferta adequada de sombra pode reduzir em cerca de 85% o tempo de exposição dos animais aos níveis mais severos de estresse térmico. A pesquisa foi publicada na revista científica Animals e analisou dados climáticos de 636 localidades produtoras de gado na cadeia de abastecimento da companhia no Brasil, Argentina, Colômbia, Paraguai e Uruguai ao longo de cinco anos.
De acordo com o estudo, a adoção de áreas sombreadas pode gerar retorno líquido estimado entre 12 e 16 dólares por animal, resultado da maior eficiência alimentar e do melhor ganho de peso, mesmo quando a solução é aplicada apenas na fase de terminação. Além de estruturas artificiais de sombreamento, soluções baseadas em árvores também têm sido apontadas como alternativa eficiente para reduzir o estresse térmico nos rebanhos.
Pesquisas da Embrapa Pecuária Sudeste indicam que a introdução de árvores nas áreas de produção contribui para melhorar o conforto térmico dos animais e preservar sua capacidade reprodutiva. Uma das estratégias recomendadas é a adoção de sistemas integrados como a ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), que combina atividades agrícolas, pecuárias e florestais na mesma área.
Segundo Alexandre Rossetto Garcia, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, o aumento da temperatura corporal desencadeia uma série de efeitos fisiológicos negativos nos bovinos.
““Quando o animal sente desconforto térmico, ele passa a produzir mais cortisol, hormônio ligado ao estresse, o que reduz o consumo de alimentos e prejudica a produtividade”,”
informou.
Os impactos também se estendem à reprodução. O aumento da temperatura corporal pode comprometer a qualidade do sêmen nos machos e reduzir a qualidade dos ovócitos nas fêmeas, dificultando a fecundação. Mesmo quando ocorre a gestação, o embrião pode sofrer com as oscilações térmicas e até morrer precocemente. Animais jovens possuem metabolismo mais acelerado e mecanismos de termorregulação menos eficientes, aumentando a suscetibilidade às variações de temperatura e o risco de hipertermia.
Por isso, a oferta de sombra, o acesso contínuo à água de qualidade, ajustes no manejo e o suporte nutricional adequado são apontados como medidas fundamentais para reduzir perdas produtivas e garantir a sustentabilidade da pecuária.


