O Equador deu início, na noite deste domingo (15), a um plano de 15 dias para combater as organizações de narcotráfico, com apoio dos Estados Unidos. A ação inclui rígidos toques de recolher nas regiões mais afetadas pela violência.
O presidente do Equador, Daniel Noboa, tem implementado uma política rigorosa contra os cartéis da cocaína há mais de dois anos. No entanto, os índices de homicídios, desaparecimentos, extorsões e outros crimes permanecem elevados. Até a manhã de 31 de março, as forças militares equatorianas realizarão uma “ofensiva muito forte” com “assessoria” americana, conforme antecipou o ministro do Interior, John Reimberg.
O governo equatoriano ainda não decidiu se irá mobilizar militares dos EUA em seu território, como ocorreu anteriormente durante o mandato de Noboa. “Estamos em guerra”, afirmou Reimberg. Ele pediu à população que não saia de casa durante o período de operações: “Não se arrisquem, não saiam, fiquem em casa, deixem que a força pública, com os aliados, faça o trabalho que tem de ser feito”.
Embora o Equador não produza cocaína, o país se tornou o principal ponto de partida da droga que chega aos Estados Unidos. Com a proximidade de grandes produtores como Colômbia e Peru, o Equador apresenta uma das taxas de homicídio mais altas da América Latina, com 52 para cada 100 mil habitantes, segundo o Observatório do Crime Organizado.
Os toques de recolher proíbem a saída de casa entre 23h e 5h locais nas províncias costeiras de Guayas, Los Ríos, Santo Domingo de los Tsáchilas e El Oro. Durante esse período, apenas viajantes com passagem aérea, profissionais de saúde e trabalhadores dos serviços de emergência poderão sair.
A medida gera preocupação entre jornalistas, transportadores, donos de restaurantes e outros negócios noturnos, além de pessoas que residem longe de seus locais de trabalho. Martha Ladines, de 28 anos, padeira em Guayaquil, expressou sua preocupação: “Disseram para nós que essa hora não será compensada porque há turnos de outros colegas, e vão descontar do salário”.
O Equador faz parte de uma aliança de 17 países criada por Donald Trump para combater o narcotráfico na região, após um acordo em Miami no início do mês, denominado “Escudo das Américas”. Noboa se alinha a países como El Salvador e Argentina, que apoiam a campanha americana para ampliar sua influência na América Latina.
Nos últimos meses, forças especiais americanas têm apoiado os comandos equatorianos em treinamento, inteligência e financiamento. Recentemente, o governo anunciou a inauguração do primeiro escritório do FBI no Equador. Na semana passada, um acampamento dos Comandos da Fronteira, dissidência da guerrilha colombiana das Farc, foi bombardeado com apoio dos EUA.
A ofensiva gera divisões entre os equatorianos, especialmente diante de denúncias de organismos de direitos humanos sobre abusos da força pública durante os frequentes estados de exceção decretados por Noboa. Luis Villacís, um vigilante de 58 anos, comentou: “O toque de recolher vai ser duro para muitos por causa do trabalho, mas é necessário para tentar controlar a insegurança em que vivemos. Tomara que as autoridades façam uma boa operação tática e não haja tantos mortos”.
Vale lembrar que os equatorianos votaram “não” ao retorno de bases militares estrangeiras ao país em um referendo promovido por Noboa.


