A bióloga Natalia Pasternak compartilhou suas impressões sobre a polilaminina, um tratamento experimental que visa ajudar pessoas com lesões na medula. A pesquisa é liderada por Tatiana Sampaio e está sendo desenvolvida em parceria com o laboratório Cristália.
Pasternak, que é diretora do Instituto Questão de Ciência (IQC) e professora na Universidade Colúmbia, destacou que a divulgação do tratamento ocorreu antes da publicação de estudos robustos. ‘Como se divulga um press release e se faz um evento desses antes de ter estudos robustos publicados?’, questionou.
Ela ressaltou que a ciência não deve ser feita com comunicados de imprensa sensacionalistas. ‘Quando um comunicado para a imprensa é disparado antes de uma pesquisa revisada por pares e publicada em um periódico da área, é preciso acender o sinal de alerta na comunidade científica e entre os jornalistas.’
Pasternak também comentou sobre a expectativa gerada em torno da polilaminina, afirmando que é natural que a farmacêutica queira promover seu produto. ‘O apelo emocional é fortíssimo, porque você está falando de pacientes e familiares extremamente vulneráveis que, de modo justificável, se agarrariam a qualquer fio de esperança.’
Ela enfatizou que a pesquisa está em seus estágios iniciais e que não há dados suficientes para afirmar a eficácia do tratamento. ‘Estamos falando de algo muito, mas muito no começo. Não há dados suficientes publicados nem sequer para levantar tamanha discussão.’
A bióloga criticou a metodologia do estudo realizado com cães, que não seguiu o protocolo adequado para a pesquisa em humanos. ‘Um estudo de metodologia ruim e com uma aplicação diferente daquela que tinha sido testada em humanos’, disse.
Pasternak também mencionou que a pesquisa piloto em humanos foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), mas que houve mudanças no desenho do estudo após a inclusão do segundo paciente. ‘O fato é que eles decidiram excluir o grupo controle e recrutaram, ao final, apenas oito pacientes.’
Ela alertou sobre a falta de transparência no processo de aprovação do estudo pela Anvisa, afirmando que o IQC solicitou acesso ao dossiê submetido pelo laboratório, mas a resposta inicial foi negativa devido ao sigilo do processo.


