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Saúde

Unicamp cria banco de dados inédito para combater desinformação antivacina

Amanda Rocha
Última atualização: 17 de março de 2026 07:59
Amanda Rocha
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Tempo: 4 min.
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Pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) desenvolveram um banco de dados inédito para combater a desinformação antivacina. O laboratório de inteligência artificial Recod.ai coletou quatro milhões de postagens e 1,4 milhão de arquivos multimídia do Telegram, abrangendo o período de janeiro de 2020 a junho de 2025.

O objetivo é oferecer uma ferramenta para valorizar informações baseadas em evidências no campo da saúde pública. A iniciativa busca suprir uma lacuna na disponibilidade de informações abertas e sistematizadas sobre a infodemia no Brasil. “Os dados mostram que a desinformação vai além da saúde e envolve disputas políticas, crenças e desconfiança nas instituições com impactos reais, como a queda da cobertura vacinal”, afirma o texto do material de divulgação do laboratório.

A análise do Recod.ai focou no período da pandemia de Covid-19 e nos anos seguintes, marcados pela intensa circulação de conteúdos desinformativos sobre tratamentos e vacinas. Os padrões de propagação dessas narrativas foram identificados. “Queremos entender melhor as motivações e estratégias de propagação da desinformação, mais precisamente na questão da vacinação”, disse Leopoldo Lusquino Filho, colaborador do Recod.ai e docente da Unesp.

Para Lusquino Filho, o tipo de comunicação que sobrevive, ganha força e se propaga nesse meio tem muita semelhança com os mecanismos de seleção natural que vemos na natureza. A equipe de pesquisa também constatou uma estrutura organizada por trás da disseminação. “Nós fizemos uma análise e conseguimos identificar que existem canais que só disseminam desinformação, outros que apenas a compartilham, e os que fazem as duas coisas. Existe uma estratégia por trás disso”, afirma.

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Ele também aponta a influência de eventos externos, como eleições, que “geram um efeito dominó nessas redes”, e a presença de mensagens compartilhadas por robôs. A doutoranda Michelle Diniz Lopes, integrante da equipe, ressalta o impacto social do trabalho. “Analisamos as reais motivações das pessoas que consomem informação negacionista na área de saúde, principalmente no que diz respeito à questão vacinal, e quais são as estratégias eficientes para propagação dessa desinformação.”

A pesquisa identificou nichos como desconfiança institucional, crenças injustificadas, visões de mundo e política, preocupações religiosas e fobias. O banco de dados, com 5,5 terabytes de armazenamento, reúne conteúdos de 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram, incluindo 407.723 mensagens especificamente antivacina. Ele está disponível gratuitamente no Repositório de Dados da Unicamp para uso não comercial.

O projeto contou com o apoio da Maritaca.ai, que forneceu o modelo Sabiá para auxiliar na identificação das postagens, e garantiu a anonimização dos dados dos usuários para proteger a privacidade. Christiane Versuti, pós-doutoranda que acompanhou grupos do Telegram, afirmou que a falta de letramento midiático torna tudo ainda mais hostil. “As pessoas não têm o hábito de checar as fontes ou só compartilhar algo quando têm certeza do conteúdo.”

Ela também mencionou a influência da religião e a desconfiança na imprensa, onde “os jornalistas só são considerados sérios quando falam o que a pessoa defende”. Em uma próxima etapa, os pesquisadores buscarão compreender as motivações que levam as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo.

O Recod.ai planeja disponibilizar bases de dados semelhantes para Instagram, YouTube e X ainda este ano. Representantes do laboratório devem se reunir com o Ministério da Saúde para oferecer a ferramenta como subsídio para futuras políticas públicas. O projeto recebeu apoio financeiro da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e do Ministério da Saúde, por meio do Projeto Aletheia, que utiliza inteligência artificial e linguística computacional no combate à desinformação em saúde.

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