A Polícia Civil indiciou 40 homens por participação em eventos relacionados à Farra do Boi, em Governador Celso Ramos, no Litoral Norte de Santa Catarina. A prática, que tem raízes culturais entre descendentes açorianos, associa o boi à figura do mal e ocorre principalmente durante a Quaresma, que é o período de 40 dias antes da Páscoa no cristianismo.
Os indiciados podem responder na Justiça pelos crimes de maus-tratos a animais e associação criminosa, após mais de um ano de investigação. A Polícia Civil apurou um total de 22 ocorrências sobre o crime, algumas das quais foram descobertas ao longo das apurações.
O ritual, trazido por imigrantes açorianos, consiste em soltar um boi em um local ermo, cercado de pessoas que provocam o animal até que ele chegue à exaustão. Entre os indiciados, foram identificados participantes, organizadores, financiadores, transportadores e vendedores dos animais, incluindo um vereador do município. A informação foi divulgada pela Polícia Civil na segunda-feira (16). Os nomes dos indiciados não foram revelados.
Durante a investigação, a delegacia descobriu a existência de grupos organizados para arrecadação de valores, conhecidos como ‘vaquinhas’. O dinheiro arrecadado era destinado à compra de animais e ao pagamento de advogados e multas administrativas aplicadas aos participantes. A Polícia Civil afirmou que a configuração de associação criminosa foi reforçada pela repetição de nomes na articulação de aquisição e transporte do animal, demonstrando uma divisão de tarefas estruturada.
“‘A configuração de associação criminosa foi reforçada pela repetição de nomes na articulação de aquisição e transporte do animal’, disse a Polícia Civil em nota.”
O historiador Francisco do Vale Pereira explicou que a figura do boi ou do touro está presente em diversas sociedades e culturas. Em Santa Catarina, a prática da farra do boi foi comum no passado, especialmente nas comunidades do litoral. Ele ressaltou que essa manifestação não possui relação com a figura de Judas, mas sim com a representação simbólica do demônio ou do mal.
“‘A associação não é direta ao Judas, mas sim ao demônio’, explicou o historiador.”
O pesquisador Rodrigo Rosa destacou que a prática é antiga na região e está ligada às culturas latinas e às tradições tauromáticas, trazidas pelos colonizadores açorianos no século XVIII. Ele comentou que o evento ocorre próximo à Páscoa devido à relação com o término da proibição católica de consumir carne na Quaresma.
No fim de fevereiro, o governo de Santa Catarina lançou a Operação Quaresma para combater a prática, que é crime conforme a lei nacional desde 1998. A lei estadual número 17.902/2020 estabelece punições para os participantes, incluindo multas de R$ 20 mil para quem promover ou divulgar a farra do boi e R$ 10 mil para participantes e comerciantes dos animais.


