Donald Trump enfrenta dificuldades em criar consenso sobre a guerra contra o Irã, tanto entre a população americana quanto entre aliados, segundo Clifford Young, presidente da Ipsos nos EUA. Young afirma que a falta de clareza na comunicação do governo resultou em uma perda de credibilidade, com muitos americanos sem entender os motivos da intervenção no Oriente Médio.
“Você faz as pesquisas e as pessoas não entendem. Os americanos não entendem direito a razão dessa intervenção”, disse Young. Desde o início dos ataques ao Irã, Trump apresentou várias justificativas, inicialmente sugerindo que os iranianos se rebelassem contra seu governo, e depois afirmando que aceitaria apenas uma “rendição total” dos líderes iranianos.
““Trump, em minha opinião, é um político extremamente talentoso de comunicação política. Mas, no caso do Irã, daria nota zero para ele. Porque ele não justificou (o conflito), não criou consenso internamente”, afirmou Young.”
Além das falhas na comunicação, a população americana demonstra cansaço em relação às intervenções militares no exterior, que costumam ser custosas em termos financeiros e humanos. As chamadas Forever Wars, ou Guerras Intermináveis, se tornaram um trauma nacional após os conflitos no Vietnã e no Iraque. Durante sua campanha, Trump prometeu não reiniciar essas intervenções, mas desde que assumiu, atacou a Venezuela e ameaçou uma intervenção na Groenlândia.
As medidas de Trump têm encontrado pouco apoio público, conforme pesquisa da Reuters/Ipsos. Young destaca que temas como Irã e Venezuela estão distantes das preocupações imediatas dos americanos, que priorizam questões como o custo de vida. “A população americana não fica a favor de intervenções militares nesse momento, porque o custo de vida é muito mais importante para eles”, detalhou.
A Ipsos, em um relatório recente, identificou o custo de vida como o “maior problema de Trump e o principal motivo para a queda de popularidade dele”. O preço da gasolina, que tem aumentado desde o início da guerra, é um dos fatores que impactam a percepção pública. O combustível atingiu o maior valor desde 7 de outubro de 2023 nos Estados Unidos.
Vinícius Rodrigues Vieira, professor de Economia da FAAP e de Relações Internacionais da FGV, aponta que Trump mudou sua estratégia de comunicação sobre o conflito, buscando “compartilhar” os custos da guerra e apresentando-a como uma defesa do Ocidente. No entanto, essa abordagem não é simples, pois Trump não preparou adequadamente sua estratégia de comunicação.
Vieira também menciona que os europeus foram ignorados no início dos ataques, com os EUA não consultando a Otan ou outros países da Europa. Após o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo regime iraniano, Trump solicitou mais apoio da aliança militar e de países como França, Alemanha e Reino Unido, mas recebeu negativas.
““Quando a gente pensa no Bush pai e no Bush filho, pelo menos eles tentaram criar consensos com aliados a respeito do Iraque – o que não foi feito no caso do Irã”, disse Young.”
Trump enfrenta dificuldades para angariar apoio à guerra, com apenas ⅓ a 40% da população americana apoiando a intervenção. Young conclui que a agenda doméstica de Trump está em declínio e que a intervenção internacional pode ser uma reação aos problemas enfrentados em casa.


