O movimento para deflagrar uma greve de caminhoneiros ganhou força nos últimos dias, em resposta à alta do diesel e à percepção de que as medidas do governo federal não surtiram efeito prático para a categoria.
Lideranças do setor afirmam que a mobilização já foi deliberada em assembleias e pode se concretizar em breve, com adesão de motoristas autônomos e de profissionais contratados por transportadoras.
O presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão, declarou: “Vai ter greve. Se for preciso, vamos fechar rodovias. A categoria já deliberou por isso e estamos articulando nacionalmente com outros grupos.”
Chorão destacou que o cenário atual é de estrangulamento financeiro da atividade: “Esse movimento agora é pela sobrevivência da categoria. Não é mais uma questão pontual, é porque a conta simplesmente não fecha.”
A pressão principal vem do custo do diesel, que subiu de forma acelerada nas últimas semanas, impulsionado pela alta do petróleo no mercado internacional em meio a tensões no Oriente Médio. Dados do setor indicam que o preço do diesel acumulou aumento próximo de 19% desde o fim de fevereiro.
Esse reajuste ocorreu mesmo após o governo federal anunciar, no início de março, a zeragem das alíquotas de PIS/Cofins e a criação de uma subvenção para reduzir o preço do combustível. No entanto, o alívio foi neutralizado por um reajuste de 38 centavos por litro promovido pela Petrobras no dia seguinte ao anúncio.
Para os caminhoneiros, a combinação entre medidas fiscais e a política de preços da estatal gerou frustração e aprofundou a percepção de falta de previsibilidade. “O governo tem que assumir responsabilidade. Já sabia que a Petrobras ia aumentar o diesel depois das medidas, então, na prática, não resolveu nada para a gente.”
O impacto recai diretamente sobre a renda dos motoristas. “Não compensa rodar. Tem caminhoneiro que não tem dinheiro nem para voltar de uma viagem, porque o diesel subiu e o frete não acompanha.” A dificuldade de repassar o aumento de custos para o valor do frete é um dos principais gargalos do setor.
Chorão também mencionou que a pauta da categoria retoma reivindicações já apresentadas após a greve de 2018, quando foi instituída a política de pisos mínimos para o transporte rodoviário de cargas, por meio da Lei 13.703. Ele afirmou que a legislação não é efetivamente aplicada: “É a mesma situação de 2018. A gente conquistou direitos, como a lei do piso mínimo do frete, mas hoje ela não é cumprida na prática.”
Entre as propostas defendidas pelo setor estão o cumprimento efetivo da tabela de frete, a criação de mecanismos de controle para garantir valores mínimos nas contratações, a isenção de pedágio para caminhões sem carga e medidas estruturais para conter o preço do diesel.
A mobilização tem caráter nacional e, segundo lideranças, já conta com adesão relevante em diferentes regiões do país, incluindo polos logísticos como os portos de Santos (SP) e Itajaí (SC). Estimativas do setor apontam que o Brasil conta com cerca de 790.000 caminhoneiros autônomos e aproximadamente 750.000 motoristas celetistas.
Diante do avanço da articulação, o governo federal intensificou o monitoramento do movimento e iniciou novas rodadas de negociação. Integrantes da Casa Civil procuraram representantes da categoria nos últimos dias, enquanto o Ministério dos Transportes prepara medidas para ampliar a fiscalização do cumprimento da tabela de frete.
A orientação inicial das lideranças é que a paralisação ocorra, em um primeiro momento, sem bloqueios de rodovias, como forma de evitar multas. A possibilidade de interdição de estradas, no entanto, não está descartada.

