Um levantamento mundial realizado pela GWI revelou que pelo menos 8 em cada 10 pessoas costumam usar o celular enquanto assistem à televisão, hábito conhecido como ‘segunda tela’. O estudo mostra que esse comportamento tem se tornado cada vez mais frequente, refletindo no aumento da atenção fragmentada entre os espectadores.
Metade dos entrevistados afirmou que utiliza o tempo diante da TV para escrever mensagens de texto ou e-mails. Além disso, 35% dos participantes compartilham que jogam no celular enquanto acompanham filmes ou séries, evidenciando que não se trata apenas de uma olhada rápida no smartphone, mas de atividades paralelas que competem pela concentração do espectador.
O hábito de alternar entre telas está relacionado à liberação de dopamina no cérebro. Cada rolagem de tela ou novo post nas redes sociais proporciona pequenas doses desse neurotransmissor, responsável pela sensação de recompensa e satisfação. Esse mecanismo torna a atividade potencialmente viciante, dificultando que as pessoas mantenham o foco em conteúdos mais longos.
Especialistas alertam que, ao contrário do que muitos acreditam, não estamos dividindo nossa atenção entre duas atividades, mas sim alternando constantemente entre elas. Isso compromete a capacidade de absorção, reflexão e compreensão dos materiais audiovisuais assistidos, resultando em uma experiência superficial em ambas as atividades.
O fenômeno da segunda tela também está influenciando a produção da indústria cinematográfica. Há especulações de que grandes serviços de streaming estariam orientando roteiristas a criarem narrativas mais simples e explicativas. De acordo com as supostas orientações, personagens verbalizariam mais suas ações e apareceriam mais vezes na tela para que o espectador consiga acompanhar a trama mesmo com a atenção dividida.
Essa simplificação e repetição das narrativas preocupam especialistas, que veem nessa tendência um empobrecimento da experiência audiovisual e uma redução dos elementos que estimulam reflexão e engajamento profundo. Filmes indicados ao Oscar, como ‘Sonhos de Trem’ (2025) e ‘Hamnet’ (2025), foram criticados por parte da audiência por terem um ritmo mais lento, evidenciando como a tolerância do público para narrativas contemplativas está diminuindo.
Para combater os efeitos negativos desse comportamento, psicólogos recomendam períodos de ‘detox digital’ e o resgate de atividades que exigem concentração plena, como a leitura de livros. O exemplar físico, por oferecer menos estímulos sensoriais, ajuda a exercitar a capacidade de foco e atenção continuada, habilidades que estão sendo prejudicadas pelo constante bombardeio de informações e estímulos das múltiplas telas.


