Livro aborda escravidão infantil no século 19 e reflexos na atualidade

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

Na próxima quinta-feira, 19 de março, será lançado o livro Sobre a vida delas, da historiadora Silvana Santus, no Museu Capixaba do Negro (Mucane), em Vitória, Espírito Santo. A obra aborda a história de duas meninas escravizadas, de 12 e 14 anos, que tentaram recorrer à Justiça na segunda metade do século 19 para denunciar abusos e violência por parte de seus donos.

Apesar de não terem obtido sucesso, o caso destaca a ousadia e as possibilidades de resistência em um contexto de exploração extrema. O livro foca no cotidiano e nas lutas de crianças negras durante o período escravista. O evento contará ainda com a exposição de 14 fotos e gravuras do período, que retratam o uso da mão de obra infantil escravizada entre 1870 e 1888, com imagens de domínio público, algumas do acervo do Instituto Moreira Sales (IMS).

“As crianças eram comercializadas, vendidas, trocadas ou alugadas. O valor, na maioria das vezes, era menor do que o pago pelo escravizado adulto. Elas trabalhavam nas propriedades, no campo ou dentro das casas, desempenhando as mesmas tarefas que um adulto”, explica Silvana Santus. “Estavam dentro desse contexto de escravidão, vivendo uma não infância e um processo de invisibilidade, exploração e apagamento”, complementa.

A autora discute como as crianças eram vistas pela sociedade e tratadas politicamente, focando no período entre 1869 e os anos posteriores à abolição da escravidão, em 1888, no Espírito Santo. Um exemplo mencionado é a lei provincial nº 25, de 1869, que previa um valor para libertar meninas de 5 a 10 anos, desde que fossem educadas para causar menos problemas à sociedade. Embora a lei tenha sido aprovada, apenas 50 meninas foram beneficiadas.

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Silvana Santus também busca contribuir para um debate mais amplo sobre os desafios enfrentados por crianças negras, tanto no passado quanto no presente. Ela menciona o caso de Miguel Santana da Silva, um menino negro de 5 anos que, em 2020, caiu do 9º andar de um edifício de luxo no Recife após ser deixado pela patroa de sua mãe dentro de um elevador. “Quando uma mulher branca coloca uma criança negra dentro de um elevador, sozinha, abandonada à própria sorte, revela uma atitude desumana e que essa criança negra não tem importância ou tem menos valor, algo herdado desse passado escravista”, reflete a historiadora.

A autora defende uma atuação mais eficaz do poder público em relação às crianças negras, especialmente em questões relacionadas ao ambiente escolar. “Minha proposta é voltarmos nosso olhar para o lugar que a criança preta vem ocupando na sociedade, a partir de reflexões que passam por proposições de políticas públicas mais justas e inclusivas”, afirma Silvana. “É necessário reformular os currículos escolares para que ajudem a transformar as estatísticas que colocam a criança negra em um lugar de invisibilidade e a tornam sujeita a violências desde a primeira infância, na educação infantil, quando adentram o espaço escolar e são vitimadas pela violência do racismo”.

Serviço
Lançamento do livro: Sobre a vida delas
Autora: Silvana Santus, historiadora
Local: Museu Capixaba do Negro (Mucane) – Avenida República, 121, Centro, Vitória/ES
Data: 19 de março, 18h

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