‘Extinção silenciosa’ de presas pode levar onça-pintada a desaparecer da Mata Atlântica, aponta estudo

Amanda Rocha
Tempo: 6 min.

Uma pesquisa conduzida por pesquisadores brasileiros revelou que a baixa disponibilidade de alimento está relacionada ao baixo número de onças-pintadas na Mata Atlântica. Os especialistas alertam que a espécie pode desaparecer do bioma se a redução das presas continuar.

O levantamento mostrou um cenário de baixa abundância e biomassa das presas preferidas pela onça. Em várias áreas estudadas, a média de indivíduos por espécie ficou abaixo de cinco, indicando que há poucos animais para sustentar um predador grande ao longo do tempo.

O estudo foi coordenado pela professora Kátia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) de Piracicaba (SP), e publicado na revista Global Ecology and Conservation.

“”Se nada for feito, nós seremos o primeiro bioma do mundo a ter um predador de topo de cadeia, que no caso é a onça-pintada, extinto. Perdê-la seria uma tragédia ambiental de proporções sem tamanho”, afirmou a pesquisadora.”

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A possibilidade de extinção da onça-pintada na Mata Atlântica já havia sido apontada em 2013, quando pesquisadores identificaram o declínio da população da espécie no bioma.

O levantamento analisou nove áreas protegidas da Mata Atlântica, incluindo parques nacionais e estaduais. As áreas estudadas foram: Parque Nacional do Iguaçu, Parque Nacional do Guaricana, Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, Parque Estadual Carlos Botelho, Legado das Águas – Reserva Votorantim, Núcleo Itariru do Parque Estadual da Serra do Mar, Núcleo Santa Virgínia do Parque Estadual da Serra do Mar, Estação Ecológica do Bananal e Área de Proteção Ambiental São Francisco Xavier.

Os pesquisadores revisaram estudos publicados entre 1983 e 2025 sobre a dieta da onça, analisando 719 amostras e identificando 36 itens alimentares. Selecionaram 14 espécies de mamíferos que formam a base alimentar do felino, como catetos, queixadas, cervídeos, antas e pacas.

As câmeras automáticas foram instaladas em 496 pontos, com duas armadilhas em cada, distribuídas em grade com 1 km de distância entre si. As câmeras ficaram ligadas 24 horas por dia por cerca de 30 dias em cada área. Os pesquisadores utilizaram modelos matemáticos para calcular a média de animais e o peso total de biomassa que representam para a alimentação das onças.

O levantamento mostrou que, em quase todas as áreas analisadas, existem poucos animais das 14 espécies que compõem a base alimentar da onça-pintada. Em várias regiões, a média ficou abaixo de cinco animais por espécie. A biomassa somada de todas as espécies ficou abaixo de 100 kg, indicando falta de alimento suficiente para sustentar populações de onça-pintada a longo prazo.

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O Parque Nacional do Iguaçu foi a única área com números elevados, com uma média de 27,3 indivíduos e 638 kg de biomassa, a maior de todas as regiões monitoradas. Ferraz destacou que essa área mantém uma base relativamente saudável de presas, como veados, porcos-do-mato, capivaras e cutias.

“”Esse tipo de área é extremamente raro na Mata Atlântica. Cerca de 85% do habitat original da onça no bioma já foi perdido, e a espécie hoje ocupa apenas uma pequena fração do que resta, com populações muito pequenas e isoladas”, disse a pesquisadora.”

As áreas com menos animais disponíveis são aquelas que não registram onças ou que têm apenas poucos indivíduos. Isso confirma a ligação entre a falta de alimento e o desaparecimento do predador no bioma.

Ferraz explicou que a onça pode se aproveitar de outras presas, mas precisa de um número suficiente de presas preferenciais para sustentar suas populações. A pesquisa também observou que locais de fácil acesso apresentaram menos mamíferos de médio e grande porte, enquanto áreas isoladas concentraram mais população de presas.

O estudo não faz uma nova contagem, mas reúne estimativas recentes da literatura científica sobre a quantidade de onças. No Parque Nacional do Iguaçu, cerca de 25 onças foram registradas, enquanto no Corredor Verde, onde está o parque, há aproximadamente 93 onças. Na Serra do Mar, existem menos de 50 onças, e nos parques estaduais, entre 4 e 8 onças em cada um.

A especialista apontou que a falta de fiscalização e planejamento nas unidades de conservação contribui para a redução das presas. A pressão humana, especialmente em áreas próximas a centros urbanos, resulta em menor disponibilidade de presas para a onça.

“”Reforçar a fiscalização é o primeiro passo para evitar a extinção da onça-pintada”, afirmou Ferraz.”

Ela ressaltou que é necessário cuidar das unidades de conservação e contar com o engajamento dos moradores locais. O desaparecimento da onça-pintada causaria impactos em todo o ecossistema, alterando a composição e a estrutura da vegetação.

“”Essa bagunça no ecossistema pode trazer efeitos imprevisíveis, como a perda de biodiversidade, alteração na composição do solo, aumento de espécies exóticas e até mesmo na liberação de patógenos, o que pode potencialmente afetar a saúde humana”, avaliou.”

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