Mulheres têm dor subestimada em hospitais e recebem menos tratamento que homens, diz estudo

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

Uma revisão integrativa publicada em 2025 na revista Medicina revelou que a forma como a medicina escuta e interpreta a dor varia entre homens e mulheres. O estudo identificou que as mulheres têm maior probabilidade de ter a dor subestimada, receber menos analgesia e ter seus sintomas atribuídos a fatores emocionais, mesmo quando relatam intensidade igual ou superior à dos homens.

Esse fenômeno ocorre em diversos contextos, como emergências, pós-operatórios e procedimentos ginecológicos, e não pode ser explicado apenas por diferenças biológicas. Os autores do estudo apontam que vieses implícitos, lacunas em protocolos clínicos e estereótipos históricos contribuem para decisões que resultam em tratamento desigual.

Luciana Dores, uma analista de suporte, enfrentou anos de dor subestimada antes de receber o diagnóstico correto de osteonecrose na cabeça do fêmur. Ela relata que, em atendimentos de emergência, teve que provar sua condição com laudos para receber medicação para dor. “Um médico insinuou que eu estava viciada em opioides, por isso ia no pronto-socorro com frequência. A dor era tanta que nem morfina resolvia”, disse Luciana.

A revisão na Medicina analisou estudos observacionais e relatos de pacientes, revelando que mulheres recebem menos analgésicos em serviços de emergência, mesmo com dor equivalente, e enfrentam atrasos no diagnóstico e tratamento. Em procedimentos ginecológicos, apenas cerca de 30% dos médicos oferecem anestesia para inserção de DIU, apesar de 70% das pacientes relatarem dor moderada a intensa.

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Especialistas reconhecem que o problema persiste, mesmo com avanços. A ginecologista Marina Andrés afirmou que há evidências de que mulheres recebem menos medicação para dor e têm suas queixas desvalorizadas. A anestesiologista Cláudia Simões ressaltou que a dor é uma experiência subjetiva, influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais, o que pode levar a vieses inconscientes na avaliação clínica.

Marcelo Steiner, ginecologista da Febrasgo, destacou que as diferenças na experiência da dor entre homens e mulheres não explicam sozinhas a desigualdade no tratamento. Ele afirmou que fatores sociais e culturais moldam a prática médica, e a dor feminina é frequentemente banalizada. Albertina Duarte Takiuti, coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente, acrescentou que experiências como menstruação e parto foram tratadas como dores “esperadas”, contribuindo para essa banalização.

A anestesiologista Gabriela Queiroz do Amaral apontou que menos de 5% das mulheres no sistema público têm acesso à analgesia farmacológica durante o trabalho de parto, refletindo limitações estruturais e decisões de gestão. A subestimação da dor pode levar a consequências clínicas e comportamentais, como atrasos no diagnóstico e aumento do sofrimento psicológico.

Para reduzir a desigualdade no manejo da dor, especialistas sugerem o desenvolvimento de protocolos clínicos sensíveis a diferenças de gênero, treinamento de profissionais para reconhecimento de vieses implícitos e ampliação do acesso a analgesia. Gabriela Amaral enfatizou que a dor deve ser reconhecida em sua singularidade, não apenas como um dado fisiológico.

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