A discussão sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/2025, que propõe o fim da escala 6×1, vai além dos impactos econômicos, revelando um efeito devastador sobre a saúde. O modelo de seis dias de trabalho para um de descanso é considerado anatomicamente insustentável, atuando como um vetor de desgaste físico e mental.
Os indicadores de 2025 refletem o colapso físico da força de trabalho. O Brasil registrou 4,1 milhões de concessões de benefícios por incapacidade temporária, um crescimento de 18% em relação a 2024 e mais de 100% em relação a 2020. Dentre esses, a dorsalgia gerou mais de 237 mil afastamentos prolongados e as hérnias de disco, 208 mil. O adoecimento mental também aumentou, com mais de 534 mil casos.
A dor crônica reduz a mobilidade e compromete o sono, criando um ciclo de incapacidade que frequentemente evolui para ansiedade e depressão severa. O disco intervertebral, que não possui vasos sanguíneos, necessita de repouso e alívio de carga para se recuperar. A jornada de seis dias ininterruptos de trabalho impede essa recuperação, levando à desidratação do disco e à formação de hérnias.
A privação de descanso mantém o organismo sob níveis elevados de cortisol, aumentando o estresse e os sintomas depressivos. Após adoecer, o trabalhador é orientado a melhorar seu estilo de vida, mas essa orientação ignora a realidade de uma população sem tempo e energia para mudanças.
O custo imediato do fim desse modelo vai além dos valores financeiros, sequestrando anos de vida saudável da população trabalhadora. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dor lombar é uma das principais causas de perda de anos de vida saudável no Brasil, medida pelo indicador DALY.
Um DALY equivale a um ano de vida saudável perdido. No Brasil, as dores na coluna e as hérnias de disco resultam em até 2,5 milhões de anos de vida saudável perdidos anualmente. Isso significa que 2,5 milhões de pessoas passam um ano inteiro sofrendo com dor e limitações.
Embora nem toda dor lombar seja atribuída à escala 6×1, essa jornada exaustiva contribui significativamente para a prevalência dessa patologia. Estima-se que cerca de 1 milhão de DALYs por ano estejam diretamente relacionados a esse modelo. Com cada trabalhador gerando, em média, R$ 100 mil por ano em produtividade, a perda potencial chega a R$ 100 bilhões anuais, sem contar os custos diretos com o Sistema Único de Saúde (SUS), previdência, reabilitação, medicação e afastamentos prolongados.
O setor produtivo argumenta que o fim da escala custaria R$ 122 bilhões, mas ignora o custo sanitário e o desperdício de uma rotina biologicamente impraticável. Defender a aprovação da PEC 8/2025 é um avanço civilizatório e suprapartidário. Tratar o corpo humano como descartável e depois se surpreender com o colapso é irracional.

