O candidato Luis Henrique Etechebere Bessa, de 18 anos, entrou com uma ação na Justiça para solicitar que a Fuvest apresente uma justificativa detalhada sobre a nota zero atribuída à sua redação no vestibular de 2026. O jovem disputava uma vaga no curso de direito da Universidade de São Paulo e foi desclassificado após a banca examinadora considerar que seu texto não abordou o tema proposto: “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”.
A redação de Bessa ganhou repercussão nas redes sociais devido ao uso de um vocabulário extremamente incomum e arcaico. Logo na abertura do texto, o candidato escreveu: “Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito”. Após receber críticas e piadas no X (antigo Twitter) sobre o vocabulário utilizado, o jovem deletou todas as publicações referentes ao caso.
A Fuvest esclareceu que a nota zero foi aplicada porque o texto falhou em compreender e desenvolver o tema central. Segundo a instituição, não foram encontrados indícios suficientes de intertextualidade ou progressão textual que sustentassem a discussão sobre o perdão. Para garantir a isenção do processo, a fundação informou que a redação passou por três avaliações cegas independentes, procedimento padrão que pode chegar a quatro correções em casos de divergência.
A banca reiterou que o rigor na correção é condizente com os critérios estabelecidos no edital, enfatizando que o uso de palavras complexas não substitui a necessidade de clareza e de uma tese bem estruturada.
O professor e coordenador de Redação do Curso Anglo, Sérgio Paganim, explicou que o gênero dissertativo-argumentativo exige que o autor assuma um posicionamento claro, sustentado por argumentos e reflexões autorais. No caso de Bessa, o professor identificou o que chamou de “exibicionismo de repertório”. Para ele, o texto se apresentou como uma colagem de conceitos e pensadores que não estavam a serviço de uma ideia central.
Paganim afirmou que a redação obteve nota zero por uma série de razões. “A primeira: há uma série de ideias, de afirmações, de autores, de conceitos que são arrolados no texto, mas eles vão se ligando um ao outro, porém não se ligam frontalmente, explicitamente, ao tema; não estão a serviço de uma tese clara”, disse. O professor ressaltou que, embora o autor mencione o tema proposto no final do texto, o desenvolvimento não foi pensado para sustentar um posicionamento a respeito do assunto.
Além disso, o professor destacou que a linguagem utilizada dificultou o entendimento dos conceitos e ideias. “Esse tipo de repertório, de exibicionismo de repertório, também não contribui para a construção desse texto dissertativo, que é, de certa forma, muito mais simples do que esse texto fez”, concluiu.

