‘Falar sobre a morte não poupa sofrimento, organiza o sofrimento’, diz Ana Cláudia Quintana Arantes

Amanda Rocha
Tempo: 3 min.

A médica paliativista e escritora Ana Cláudia Quintana Arantes abordou a morte como uma dimensão da vida que merece atenção. Em sua obra, “A morte é um dia que vale a pena viver”, ela enfatiza a importância de discutir o tema para evitar decisões apressadas e sofrimento prolongado.

Com mais de duas décadas de experiência no acompanhamento de pacientes com doenças graves, Ana Cláudia observa que a falta de diálogo sobre a morte resulta em despedidas repletas de dúvidas. No Brasil, apesar dos avanços nas políticas públicas, o número de equipes de cuidados paliativos ainda é insuficiente para atender a demanda crescente de uma população que envelhece rapidamente.

Ela destaca que a maioria das pessoas não morre de forma súbita, mas sim doente, necessitando de cuidados adequados. Os cuidados paliativos, muitas vezes mal interpretados como sinônimo de desistência, são fundamentais para garantir uma experiência digna no final da vida.

Em entrevista, Ana Cláudia afirmou:

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““A morte vale a pena quando há esse encontro””

entre o paciente e o cuidado. Ela critica a maneira como a medicina tradicional lida com a finitude, ressaltando que reconhecer os limites da vida pode levar a uma vivência mais plena.

Sobre a resistência da sociedade em discutir a morte, ela comentou:

““Quando você não fala sobre a morte, perde a chance de entender melhor o que fazer com o seu tempo””

. Ana Cláudia acredita que essa falta de conversa gera sofrimento desnecessário, pois as famílias acabam decidindo sem saber o que o paciente realmente deseja.

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A médica também mencionou que a formação em cuidados paliativos nas faculdades de medicina, embora obrigatória desde 2022, ainda é insuficiente para preparar os profissionais adequadamente.

““Você tem, às vezes, dois períodos para ensinar algo que exige experiência, sensibilidade e prática””

, destacou.

Ela definiu uma “boa morte” como uma experiência de cuidado que respeita a dignidade do paciente, independentemente do local ou dos procedimentos envolvidos. Ana Cláudia enfatizou que a comunicação prévia é essencial para que as pessoas possam expressar suas vontades.

Além disso, a médica alertou para a realidade do sistema de saúde brasileiro, que muitas vezes falha em oferecer cuidados adequados no fim da vida.

““Muitos morrem sem diagnóstico, sem tratamento, sem cuidado””

, afirmou, ressaltando a desigualdade social que impacta diretamente na experiência da morte.

Por fim, Ana Cláudia concluiu que os cuidados paliativos são uma forma de proteção contra o sofrimento e não devem ser confundidos com a antecipação da morte.

““Quando o cuidado começa antes, a pessoa vive melhor””

, finalizou, refletindo sobre a importância de viver com coerência entre palavras e ações.

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