Um mergulho com câmera no Lago de Furnas, localizado no Sul de Minas, revelou cidades submersas que foram parcialmente inundadas com a formação da represa. Essas ruínas, preservadas a dezenas de metros de profundidade, têm sido exploradas por mergulhadores dedicados ao resgate da história local.
A expedição especial “Travessia das Águas”, realizada até o dia 10 de abril, é uma parceria entre o g1 Sul de Minas e a EPTV. O projeto visa mostrar a importância econômica e as histórias das comunidades que dependem do maior reservatório de água doce do Sudeste e um dos maiores do Brasil.
Roberto Obvioslo, instrutor de mergulho, é um dos principais responsáveis por essa exploração. Desde a infância, ele acompanhou seu pai na construção da usina e sempre teve curiosidade sobre as áreas que foram inundadas. “Aquele lance do lago encher e inundar algumas áreas sempre me deixou curioso para saber o que realmente aconteceu”, relembra.
Nos últimos dez anos, Obvioslo tem se dedicado a buscar vestígios das antigas cidades, especialmente na região de São José da Barra (MG). O trabalho começou com relatos de moradores antigos e resultou em descobertas significativas, incluindo uma rua inteira submersa. “A gente encontrou uma rua completa. A partir daí, começamos a mapear tudo”, conta.
Após o mapeamento, a exploração detalhada revelou elementos do cotidiano das antigas comunidades, como fogões a lenha, pisos e estruturas de casas. “Tem casa que está inteira. Só parte do telhado desceu, mas dá para identificar tudo certinho”, afirma Obvioslo.
O foco da exploração é a preservação. “O que está lá, fica lá. A gente só registra com fotografia”, explica o mergulhador. Entre os itens já resgatados para um possível museu estão um penico, uma telha, um tijolo e um pedaço de madeira, representando a chamada ‘antiga Barra’. Uma das descobertas mais notáveis foi uma ponte totalmente preservada, encontrada acidentalmente durante a busca por um carro submerso.
As expedições também revelaram outros achados curiosos, como uma escuna naufragada, uma Kombi, um ônibus e diversos equipamentos perdidos ao longo dos anos. Os mergulhos exigem preparo técnico avançado, com profundidades que podem chegar a 90 metros.
As histórias das pessoas que viveram a inundação em 1963 também emergem. Abrão Alves Andrade, de 86 anos, recorda quando seu pai pediu que avisasse os vizinhos sobre a chegada das águas. “As pessoas não acreditaram, disseram que eu era bobo”, conta. O padre José Ronaldo Rocha, que tinha apenas 12 anos na época, lembra da demolição das casas e do desespero da população.
Apesar das dificuldades iniciais, muitos acreditam que a represa trouxe benefícios a longo prazo, como o desenvolvimento do turismo e a modernização da agricultura. “Hoje as terras são muito mais produtivas”, afirma José Dalton Barbosa, de 77 anos. O padre José Ronaldo complementa que, embora o processo tenha sido doloroso, a população se mostrou resiliente e capaz de reconstruir suas vidas.

