O líder indígena Nahu Kuikuro aprendeu a língua portuguesa na década de 40 para defender a aldeia Ipatsé, onde vivia. Segundo o escritor Yamaluí Kuikuro Mehinaku, autor do livro “Dono das palavras: a história do meu avô”, Nahu foi o primeiro indígena no Alto Xingu a falar o idioma. A biografia venceu o Prêmio da Biblioteca Nacional no ano passado.
Yamaluí está em Brasília esta semana para participar do Acampamento Terra Livre, evento que reúne mais de 7 mil indígenas, com atos de protesto por políticas públicas e para garantir visibilidade às causas dos povos tradicionais. O escritor explica que, ao aprender o idioma, seu avô conseguiu barrar interferências de brancos e proteger as raízes de sua cultura.
Nahu, que faleceu em 2005 aos 104 anos, fez articulações para evitar invasões e para a fundação do Parque Indígena do Xingu. Ele se tornou um contato de confiança dos irmãos Villas-Boas, que participaram de expedições na região. O neto biógrafo relata que Nahu era órfão de pai quando aprendeu português, inicialmente motivado pelo interesse da família em obter roupas e outros bens dos brancos.
Ele ocupou a função de tradutor entre sua etnia e os não indígenas, sendo conhecido como “dono das palavras”. O trabalho de Nahu se tornou tão importante que ele se tornou poliglota, dominando a linguagem de 16 etnias na região do Rio Xingu. Segundo o neto, Nahu foi fundamental para a demarcação de terras em 1961, assinada pelo então presidente Jânio Quadros.
Além de usar o idioma para lutar pela causa indígena, Nahu era mestre de cantos e conhecimentos diversos. Quando idoso, incentivava seus netos a estudar, dizendo: ‘eu briguei e consegui. Agora, estou deixando para vocês protegerem nosso território’. Ele pedia que transformassem conhecimentos e memórias orais em documentos.
Após o falecimento do avô, Yamaluí decidiu pesquisar sobre sua vida e transformar seu saber em livros. Ele destacou a importância de registrar a história, afirmando que, ao contar apenas de forma oral, os não indígenas não acreditam. O escritor expressou orgulho ao ver que seu avô se encontrou com presidentes da República e com o marechal Cândido Rondon, primeiro diretor do antigo Serviço de Proteção ao Índio.
Uma das missões de Yamaluí é garantir que as novas gerações conheçam a história de Nahu e se inspirem a proteger a cultura e as terras. Ele alerta que as escolas que atendem indígenas na região não valorizam suficientemente os personagens dos povos originários, ensinando mais sobre a cultura branca. ‘Eu escrevi porque a história do vovô estava abandonada e excluída. Ninguém contava a história dele e eu contei’.

