Pesquisadores do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, identificaram um novo mecanismo relacionado à doença de Alzheimer. O estudo, publicado na revista Nature Neuroscience, sugere que o acúmulo das proteínas beta-amiloide e TAU não é suficiente para causar a demência por si só.
A pesquisa indica que a ativação desregulada das células de defesa do cérebro, conhecidas como microglia, é um fator crucial. Quando essas células são ativadas de forma inadequada, elas estimulam os astrócitos a adotarem um comportamento inflamatório, acelerando a progressão da doença.
Os cientistas acompanharam mais de 300 pessoas e descobriram que nem todos os indivíduos com placas de beta-amiloide desenvolveram demência, especialmente quando o sistema de defesa do cérebro se mantém sob controle. “Mostramos pela primeira vez, em humanos, que a comunicação desregulada entre as células de suporte e defesa do cérebro é determinante para o desenvolvimento da doença de Alzheimer”, afirmou João Pedro Ferrari-Souza, primeiro autor do estudo.
O estudo também revelou que a inflamação atua como uma ponte entre as proteínas tóxicas e o dano cerebral definitivo. “Conseguir identificar esse processo por meio de exames de sangue e imagem nos permite antecipar o avanço da doença com muito mais precisão”, disse Wyllians Borelli, coordenador do Centro da Memória do Hospital Moinhos de Vento.
Os pesquisadores destacam que os resultados podem mudar a abordagem terapêutica. “Precisamos focar em terapias capazes de controlar a inflamação do cérebro, e não apenas na remoção das placas de beta-amiloide”, afirmou Zimmer, um dos especialistas envolvidos no estudo.
Atualmente, não existe uma terapia eficaz para modular a neuroinflamação. Zimmer explicou que a inflamação cerebral é diferente da inflamação no resto do corpo, envolvendo mecanismos específicos das células da glia. Tentativas anteriores de tratamento com anti-inflamatórios comuns não obtiveram sucesso.
O grupo de pesquisa agora investiga se hábitos de vida saudáveis, como alimentação e atividade física, podem influenciar a neuroinflamação. “Ainda não está claro se esse efeito se reflete na inflamação do cérebro”, concluiu.

