O endividamento das famílias brasileiras atinge níveis alarmantes, com cerca de 80% enfrentando dificuldades para honrar compromissos financeiros. O governo federal está avaliando medidas para mitigar essa situação, e o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) pode ser utilizado para ajudar na quitação de dívidas.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho (PT), confirmou que o governo planeja liberar até R$ 7 bilhões do FGTS, beneficiando aproximadamente 10 milhões de pessoas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também mencionou que o novo programa Desenrola 2.0 permitirá o uso de recursos do FGTS para abater débitos.
No entanto, especialistas alertam que essa medida é apenas uma solução temporária e não aborda as causas estruturais do endividamento, que estão ligadas à alta taxa de juros. A Selic, mesmo após cortes, permanece no maior patamar em 20 anos.
A professora de economia do Insper, Juliana Inhasz, criticou a utilização do FGTS para quitar dívidas, afirmando que isso retira o “colchão” de segurança dos trabalhadores e apenas adia o problema do reendividamento. Ela destacou que a baixa renda da população faz com que a dívida se torne uma extensão da renda para acesso a itens básicos.
A consultora econômica Tatiana Pinheiro acrescentou que o uso do FGTS pode resultar em novas dívidas, especialmente com a taxa de juros elevada. Desde o fim do programa Desenrola, o Brasil registrou 9 milhões de novos inadimplentes, aumentando o total de 72,9 milhões em julho de 2023 para 81,4 milhões em fevereiro de 2024.
Os juros médios de operações de crédito para famílias chegaram a 62% ao ano, enquanto o rotativo do cartão de crédito atingiu 435,88% ao ano. Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, afirmou que a medida pode ajudar a resolver problemas pontuais, mas não altera a estrutura de juros altos que afeta as famílias.
O FGTS é uma importante fonte de financiamento habitacional, tendo ajudado mais de 10 milhões de famílias a adquirir a casa própria e movimentado R$ 1,3 trilhão em investimentos nos últimos 15 anos. Em 2025, o fundo financiou mais de 650 mil moradias, contribuindo para a redução do déficit habitacional.
Entretanto, o uso do FGTS para quitar dívidas pode restringir o crédito imobiliário no curto prazo, segundo Tatiana Pinheiro. Luiz França, presidente da Abrainc, alertou que essa medida pode prejudicar a habitação e agravar o déficit habitacional no país.
Fábio Gallo, professor de Finanças da FGV-SP, comparou a situação a “enxugar gelo”, destacando que a raiz do endividamento está no descontrole da economia e em problemas socioculturais. Ele enfatizou que a alta inflação e os juros elevados dificultam o pagamento de dívidas, exacerbando a inadimplência no Brasil.

