O estado de São Paulo registrou um recorde de feminicídios fora de casa em 2025, com 109 mulheres assassinadas em espaços públicos, como ruas, comércios e locais de trabalho. Esse número representa mais de 40,3% do total de 270 feminicídios ocorridos no ano. No primeiro bimestre de 2026, 24 dos 57 feminicídios foram cometidos em locais públicos.
Os dados foram obtidos a partir de um levantamento realizado pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) e abrangem os últimos nove anos. Apesar da residência continuar sendo o local mais perigoso para as mulheres, com seis a cada dez feminicídios ocorrendo em casa, a crescente violência em espaços públicos é alarmante.
Um caso emblemático foi o de Tainara Souza Santos, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por um ex-ficante na Marginal Tietê, em São Paulo. Outros incidentes incluem um homem que disparou contra a ex-companheira em uma pastelaria e uma mulher morta a facadas em Osasco. Especialistas alertam que, embora seja cedo para afirmar uma tendência, os números são preocupantes.
““O rompimento da relação é um dos momentos mais perigosos para a mulher”, afirmam especialistas.”
A pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indica que 40% dos autores de feminicídios são cônjuges, companheiros ou namorados, enquanto 26,8% são ex-cônjuges ou ex-namorados. A busca do agressor pela vítima em espaços públicos após o término da relação é um fenômeno crescente.
Fatores como o aumento da presença feminina no mercado de trabalho e a atuação de grupos masculinistas podem explicar o crescimento dos feminicídios fora de casa. Além disso, a subnotificação de casos, onde assassinatos de mulheres em espaços públicos não são classificados como feminicídio, é uma preocupação. “É uma forma de dizer para nós mulheres: fiquem confinadas à esfera privada”, afirma a promotora de Justiça, Fabiana Dal’Mas.
““O feminicídio em espaço público é uma forma do homem comunicar à mulher que aquele espaço não lhe pertence”, diz Fabiana Dal’Mas.”
O aumento da violência digital, incluindo vazamento de imagens íntimas e stalking, também é um fator preocupante. Especialistas alertam que essa violência pode escalar para agressões físicas em espaços públicos. Betina Barros, professora e pesquisadora, destaca que é cedo para associar o aumento dos feminicídios em via pública a movimentos masculinistas, mas os dados sugerem um desprezo crescente pela vida das mulheres.
A classificação de feminicídio, que normalmente associa o crime ao ambiente doméstico, pode estar se expandindo. A lei do Pacote Antifeminicídio, sancionada em 2024, pode ter contribuído para que casos antes registrados como homicídios sejam agora identificados como feminicídios. “As polícias estão expandindo a compreensão de que o feminicídio é para além da violência doméstica”, explica Barros.
O feminicídio é considerado a forma mais extrema de violência contra a mulher. Especialistas sugerem que medidas protetivas, políticas públicas de apoio e maior presença feminina nas forças de segurança são essenciais para quebrar o ciclo de violência. “Precisamos pensar em mecanismos para garantir que essa vítima continue sendo vigiada pelo Estado”, afirma Betina Barros.
A SSP de São Paulo afirmou que o enfrentamento à violência contra a mulher é prioridade do governo, que tem intensificado a rede de proteção e os mecanismos de prevenção. Entre as ações estão a ampliação da rede de Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) e a criação de um aplicativo para conectar mulheres em risco com a polícia.



