As ações da Barry Callebaut, maior produtora de chocolate do mundo, caíram mais de 15% após a empresa cortar sua previsão de lucro e alertar para um cenário adverso no setor.
A forte queda recente nos preços do cacau, que deveria aliviar as margens da indústria, na verdade está pressionando-as. A empresa agora projeta uma retração de lucros operacionais em dois dígitos neste ano fiscal, revertendo expectativas anteriores de crescimento.
O principal problema está no descasamento entre custos e receitas. A Barry Callebaut compra cacau com meses de antecedência, mas vende chocolate com base nos preços atuais do mercado. Com a queda acelerada da commodity, a empresa passou a vender seus produtos por valores menores enquanto ainda processa estoques adquiridos a preços mais altos. Esse efeito, conhecido como “timing mismatch”, comprime as margens e reduz a rentabilidade no curto prazo.
Nos últimos dois anos, o preço do cacau passou por oscilações históricas, impulsionado por fatores climáticos na África Ocidental, principal região produtora, e por disrupções logísticas globais. Além disso, o consumo global de chocolate também mostra sinais de enfraquecimento.
Mesmo com a recente queda do cacau, os preços ao consumidor seguem elevados, refletindo aumentos anteriores ainda não totalmente revertidos. Isso tem reduzido o volume de vendas, especialmente em mercados mais sensíveis à inflação. No primeiro semestre fiscal, o volume vendido pela empresa caiu quase 7%, embora a companhia afirme ter desempenho superior ao da média do mercado.
Outro fator que pesa sobre o setor é o excesso de capacidade produtiva. Com a desaceleração da demanda, há mais oferta de chocolate do que o mercado consegue absorver no curto prazo, aumentando a concorrência e pressionando preços. Executivos da empresa destacam que estão adotando medidas para proteger participação de mercado, mesmo que isso implique sacrificar margens temporariamente.
O cenário é agravado por fatores geopolíticos e operacionais. A empresa cita impactos indiretos da guerra envolvendo o Irã, que afeta cadeias logísticas e custos de transporte, além do fechamento temporário de uma fábrica no Canadá. Esses elementos reforçam a instabilidade de um setor altamente dependente de cadeias globais complexas.
Além dos desafios imediatos, analistas apontam riscos de longo prazo para o consumo de chocolate, como o avanço de medicamentos para perda de peso, que podem reduzir a ingestão de alimentos calóricos. A tendência levanta dúvidas sobre o crescimento futuro do setor, historicamente sustentado por volumes elevados de consumo.
Apesar do cenário adverso, a Barry Callebaut projeta recuperação gradual ao longo do ano, com melhora nos volumes no segundo semestre. A expectativa é que a estabilização dos preços do cacau ajude a recompor margens e estimular a demanda.

