Um estudo internacional sugere que o ambiente onde uma pessoa nasce, cresce e envelhece pode ter um impacto maior na saúde do cérebro do que fatores clássicos analisados isoladamente, incluindo doenças neurodegenerativas. A pesquisa, publicada na revista científica Nature Medicine, analisou dados de 18.701 indivíduos em 34 países e concluiu que o chamado “exposoma” —o conjunto de exposições ao longo da vida— explica até 15 vezes mais o envelhecimento do cérebro do que fatores isolados.
A carga acumulada dessas exposições pode aumentar em até nove vezes o risco de envelhecimento cerebral acelerado, um indicador associado a maior probabilidade de declínio cognitivo e demência. O neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), explica que o exposoma inclui fatores ambientais, sociais, comportamentais e até políticos, que influenciam a saúde ao longo da vida.
O estudo destaca que não é uma exposição isolada que acelera o envelhecimento cerebral, mas a combinação entre elas e a forma como interagem. Modelos que consideraram os fatores em conjunto tiveram desempenho muito superior aos que analisavam variáveis isoladas, com ganho de explicação que chegou a mais de 15 vezes.
Os pesquisadores alertam que a poluição do ar, estresse crônico, desigualdade social e estilo de vida não atuam de forma independente, podendo se potencializar. Esse efeito sinérgico ajuda a entender por que populações expostas a múltiplas vulnerabilidades apresentam maior risco de envelhecimento cerebral precoce.
Os mecanismos biológicos por trás desses efeitos incluem a poluição do ar, que está associada a processos de inflamação crônica e estresse oxidativo, além de fatores metabólicos e hábitos de vida que influenciam a saúde dos vasos sanguíneos. Fatores como desigualdade social e instabilidade política aumentam o estresse crônico e limitam o acesso a serviços essenciais, impactando a saúde cerebral ao longo do tempo.
O estudo também revela que diferentes dimensões do exposoma podem afetar áreas distintas do cérebro. Fatores físicos, como poluição e clima, estão mais relacionados a alterações estruturais, enquanto fatores sociais se associam a mudanças funcionais nas redes neurais.
Apesar dos dados expressivos, os pesquisadores ressaltam que o aumento de até nove vezes no risco de envelhecimento cerebral acelerado se refere a padrões populacionais e não a previsões individuais. Isso significa que a exposição a um conjunto de fatores não garante que uma pessoa desenvolverá problemas cognitivos, mas aumenta a probabilidade de trajetórias menos favoráveis.
No Brasil, o estudo encontra um cenário conhecido, com alta desigualdade social, poluição significativa e acesso desigual a serviços de saúde. Dados do Relatório Nacional sobre a Demência, do Ministério da Saúde, indicam que cerca de 8,5% das pessoas com mais de 60 anos vivem com a condição, representando entre 1,8 milhão e 2,7 milhões de brasileiros.
O impacto do estudo está na ampliação do olhar sobre prevenção. Fatores como sono, alimentação e atividade física continuam relevantes, mas a compensação tem limites. A leitura mais ampla aponta para a necessidade de ações em diferentes níveis, incluindo políticas ambientais e sociais, além de estratégias de promoção de saúde mental.

