Clécio Ferreira Nunes Huni Kuĩ, indígena de 24 anos, foi aprovado como professor efetivo de inglês no Instituto Federal do Acre (Ifac). Sua trajetória é marcada por dificuldades financeiras e um intenso processo de construção da própria identidade.
Nascido e criado em Rio Branco, Clécio cresceu no bairro Montanhês e completou toda a sua educação básica em escolas públicas. Após finalizar o ensino médio, ele cursou Letras Inglês na Universidade Federal do Acre (Ufac) e atualmente está fazendo mestrado, além de uma graduação em Jornalismo.
No dia 19 de abril, quando se celebra o Dia dos Povos Indígenas, Clécio compartilhou sua história de superação. Ele foi nomeado professor no Ifac em fevereiro deste ano, após um longo processo que começou a ganhar força em 2023. “Quando eu vi meu nome na lista de classificados, fiquei sem acreditar. Queria gritar, mas não podia porque era de madrugada”, relatou.
Clécio decidiu se inscrever no concurso do Ifac enquanto finalizava sua graduação e se preparava para o mestrado. Ele se motivou ao perceber que havia quatro vagas disponíveis para Letras/Inglês. “Eu pensei que quatro vagas eram muitas e eu precisava só de uma”, comentou.
Apesar de um bom desempenho nas etapas iniciais, a demora no andamento do concurso quase o desanimou. O processo ficou suspenso por meses devido a questionamentos judiciais, gerando incerteza entre os candidatos. Clécio, no entanto, se reanimou ao notar que concorrentes de outros estados estavam se deslocando até o Acre para a disputa.
Inicialmente, Clécio não ficou entre as vagas imediatas, sendo classificado em quinto lugar na ampla concorrência. Com a aplicação das cotas, ele passou a ocupar a sexta colocação geral. As convocações ocorreram ao longo de 2025, e a expectativa aumentou com a possibilidade de novas vagas. A convocação final veio no dia 27 de fevereiro, quando três candidatos foram chamados, incluindo Clécio.
Clécio não teve vivência em aldeia durante a infância, mas sempre teve contato com a cultura Huni Kuĩ em casa. Ele lembrou de sua infância marcada pela timidez e estranhamento, especialmente por ser associado a asiáticos por causa de seus traços. Desde jovem, Clécio demonstrou facilidade para aprender idiomas, começando pelo espanhol e depois estudando inglês.
Ele destacou que nunca teve um professor indígena durante sua trajetória escolar e acadêmica. Para Clécio, ocupar esse espaço é significativo. “Eu espero ser essa referência para alguém. Se não tem ninguém lá, não quer dizer que não é para você. Vai lá e seja essa pessoa”, encorajou. Além de lecionar, ele pretende seguir na carreira acadêmica e desenvolver projetos de ensino de inglês voltados às comunidades indígenas.


